Aprendeu desde pequena que devia disciplinar os desejos, os seus e os do próximo. Pessoas precisam seguir ordens, quase sempre de pessoas que as desconhecem. Quase sempre de pessoas que não as seguem. E porque queria ser livre e fazer o povo pensar, decidiu se tornar professora. Não por falta de opção, não porque não fosse capaz de intentar qualquer outro oficio, mas porque queria mudar o mundo.
Ah… menina idealista! Sua mente cheia de ideias povoadas de poesia pensava o mundo de maneira diversa. Sempre foi assim, não seria diferente em se tratando de escolher uma profissão.
A realidade dura da sala de aula logo tratou de colocá-la em seu lugar, mas quem é que disse que ela aceitaria permanecer nele? A sala de aula sempre foi para ela um espaço de transformação, onde a vida acontecia naturalmente através do encontro de seres humanos únicos, com histórias e trajetórias diversas, o que contribuía para a beleza do debate.
Aliás, qual é o lugar do professor no Brasil? Um lugar de desprezo e desmerecimento? Professores são mesmo vagabundos, como insistem em nomear alguns políticos que não trabalharam nem um dia sequer em suas vidas?
Não, o professor é a mola propulsora da mudança. Não, ele não é nenhum herói, nem exerce uma espécie de sacerdócio. Ele é o conhecedor do chão da sala de aula, um ser humano cuja vocação convidou à tarefa difícil e absolutamente incrível de aprender com outros seres humanos. E por isso mesmo, deve ser respeitado.
Mais um Dia dos Professores se aproxima e vejo muitos de meus colegas tomados por um cansaço que chega a ser espiritual, sem qualquer perspectiva de melhoria das condições de trabalho ou valorização da profissão. Mas em quase todas as escolas haverá uma “festinha” para celebrar nosso dia. Celebrar exatamente o quê?
Vez por outra questiono, não minha escolha, mas o sentido que essa minha profissão assumiu ao longo das décadas, a maneira inescrupulosa como sucessivos governos trataram de desestabilizar e dividir nossa classe, o tratamento quase indigno que recebemos nas escolas desse nosso Brasil de dimensões continentais.
Mas o que mais me aborrece mesmo é constatar, não raras vezes, que tornamos a escola um lugar hostil, tanto para nossos alunos quanto para nós mesmos.
O lugar que deveria ser de acolhimento, troca e aprendizado foi aos poucos, e isso parece mesmo ser um projeto, se tornando um lugar de perpetuação de preconceitos, desrespeito e apatia.
É preciso resgatar nossos professores, eles, corajosos como sempre, tratarão de reerguer nossas escolas. Mas que não o façam sozinhos, sozinhos, não!
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