O álibi de saia | A negação da misoginia por mulheres públicas e os limites da representação

I. A Boca e a Frase

Há frases que mudam de peso conforme a boca que as pronuncia. “Feminicídio não existe”, dita por um homem, soa a provocação de fim de mesa de bar, e a reação é revirar os olhos. Dita por uma mulher, soa a testemunho. Segundo reportagem, foi o que a deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL) afirmou no programa RedCast. Aos 23 anos, ela foi eleita com 1.956.238 votos, a segunda maior votação individual da história da Alesp para o cargo. Apresenta-se como antifeminista e levou essa marca para a campanha.

Escrevo sobre ela porque é o caso mais visível do momento, mas o tema a ultrapassa. Trata-se de um fenômeno velho que encontrou um palco novo: a mulher pública que garante ao país que a misoginia, o patriarcado ou o feminicídio são invenções de gente mal-humorada. E a pergunta que me interessa não é se ela tem direito de dizer isso (tem), nem se a maioria dos que a elegeram agiu de má-fé (não creio). Interessa-me saber o que a frase faz quando sai dessa boca específica.

II. O que não está em disputa

Comecemos por separar duas coisas que o debate público insiste em misturar. Criticar o feminismo é legítimo, e quase sempre foi o próprio feminismo a fazê-lo primeiro. Sueli Carneiro (2003) já mostrava, ao propor “enegrecer o feminismo”, que o movimento hegemônico falava de um universal que tinha cor e classe. Lélia Gonzalez (1984) denunciou que o sexismo brasileiro nunca operou separado do racismo, e que a mulher negra era lida, ao mesmo tempo, como símbolo de festa e como corpo de serviço. Kimberlé Crenshaw (1989) deu nome a essa insuficiência: a violência não se distribui igualmente entre mulheres, e quem fica na encruzilhada de vários eixos de opressão fica também fora do alcance das políticas pensadas para “a mulher” em abstrato. Ou seja, o feminismo é um campo em disputa, e é melhor assim.

Outra coisa, bem diferente, é afirmar que o fenômeno que ele descreve não existe. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2025) vem registrando mais de mil e quatrocentos feminicídios por ano, números que os pesquisadores tratam como piso, não teto. Quase sempre o crime tem a mesma coreografia: ciúme que vira controle, controle que vira ameaça, ameaça que vira morte, tudo dentro de uma casa onde, como escreveu Heleieth Saffioti (2004), a violência de gênero encontra um território de impunidade herdado de séculos de pacto patriarcal. Em 2015 o Congresso criou a qualificadora do feminicídio, e em 2024 transformou-o em crime autônomo. É possível, e saudável, debater se a melhor resposta a um problema social é sempre mais direito penal; criminólogos sérios o fazem. Mas debater a resposta pressupõe reconhecer o problema.

III. Ódio, ou ordem?

A negação costuma apoiar-se numa definição popular de misoginia como ódio pessoal: “Eu não odeio mulheres; logo, a misoginia não existe”. A filósofa Kate Manne (2018) mostrou por que essa definição é uma armadilha. Misoginia, para ela, não é um sentimento, é uma função. É o braço policial de uma ordem social em que se espera que as mulheres deem (atenção, cuidado, deferência, sexo) e em que se pune quem não dá. O sexismo, por sua vez, é o braço ideológico, aquele que explica que as coisas são como são por natureza. O bom misógino pode amar a mãe, a esposa e as filhas, e ainda assim fazer parte do mecanismo.

Pierre Bourdieu (1998) já havia sugerido que a dominação masculina é uma forma de violência simbólica, aquela que só funciona porque o dominado aplica à relação categorias de percepção que a própria dominação lhe forneceu. É por isso que a pergunta “ela sofreu?” nunca resolve o problema. Uma mulher pode ter prosperado em um ambiente e, ao mesmo tempo, usar, sem perceber, a gramática que a desvaloriza. Também não ajuda a psicologia social: Glick e Fiske (1996) distinguiram o sexismo hostil, que ataca, do benevolente, que idealiza a mulher enquanto ela cumpre o papel. Jost e Kay (2005) mostraram que a exposição a esse segundo tipo, aparentemente gentil, aumenta a aceitação do sistema como justo, inclusive entre as mulheres. A misoginia mais durável raramente grita; costuma elogiar.

IV. Por que a voz importa

Voltemos à frase e à boca. A teoria política chama de testemunho a fala de quem viu de dentro. Há uma autoridade especial em dizer “eu estive lá”. Quando uma mulher afirma que a misoginia não existe, o público recebe, junto com o conteúdo, um selo implícito: ela é mulher, ela sabe. O argumento se torna imune à acusação de machismo, e é por isso que o chamo de álibi.

Não é uma ideia nova. Simone de Beauvoir ([1949] 2009) já se perguntava por que as mulheres, ao contrário de outros grupos oprimidos, raramente se organizaram como “nós”. Sua resposta é que elas vivem dispersas entre os homens, ligadas pela casa, pela economia e pela condição social a certos homens (pai, marido) mais do que a outras mulheres. Daí uma cumplicidade que não é covardia: é a lógica de quem precisa sobreviver. A socióloga Deniz Kandiyoti (1988) deu a isso um nome que pegou, a “barganha com o patriarcado”. Em contextos de subordinação, muitas mulheres adotam estratégias que preservam a ordem em troca de ganhos individuais de proteção, status ou reconhecimento. Não são tolas: respondem a incentivos.

Os incentivos de 2026 são conhecidos. Num ecossistema digital em que o confronto vira audiência, a mulher que ataca o feminismo recebe um prêmio de visibilidade que a feminista, tantas vezes xingada, não recebe. Sarah Banet-Weiser (2018) descreve esse ecossistema como o lugar onde convivem e se alimentam um “feminismo popular” e uma “misoginia popular”, ambos mercadorias. A figura da antifeminista é, nesse mercado, um produto de rara eficiência: carrega a mensagem e a defesa contra a crítica na mesma embalagem. Camila Rocha (2021) mostrou como a nova direita brasileira aprendeu a fabricar, na internet, quadros que ganham escala sem passar pelos filtros tradicionais de partido, sindicato ou movimento. A deputada chegou à Alesp menos de dois anos depois de se eleger vereadora em Praia Grande, e a imprensa atribui o resultado ao modelo de cortes virais, que combina discurso direto e embate constante. É a lógica do algoritmo se convertendo em votos.

E há um precedente que ajuda a esvaziar o ar de novidade. Nos anos 1970, a americana Phyllis Schlafly mobilizou milhões de mulheres para derrubar a Emenda de Direitos Iguais, defendendo que o feminismo roubava das donas de casa o privilégio de serem protegidas (Critchlow, 2005; Faludi, 1991). Schlafly foi uma estrategista brilhante e uma mulher de poder real, e o que ela defendia era a manutenção de uma ordem em que o poder pertencia a outros. A pergunta permanece: pode-se ser, ao mesmo tempo, protagonista e instrumento?

V. O dano de nomear mal

Há algo mais grave do que o desacordo de opinião, e é o dano à linguagem. Miranda Fricker (2007) propõe que existem formas de injustiça que atingem alguém como conhecedor. Uma é a injustiça testemunhal: ninguém acredita em você porque você é quem é. A outra é a hermenêutica: você vive uma experiência, mas a sociedade não tem palavras para ela, e por isso você mesma não consegue entendê-la. Durante séculos, o que hoje chamamos assédio, violência doméstica ou feminicídio foi vivido como “coisa de casal”, “mau humor” ou “destino”. As palavras vieram de décadas de luta. A expressão femicide foi difundida por Russell e Radford (1992), e Rita Segato (2016), na América Latina, mostrou que ela precisava de nome próprio para existir politicamente.

Retirar a palavra é devolver a experiência ao silêncio. Charles Mills (2007) chamou de “ignorância epistêmica” não a falta casual de saber, mas o saber ativamente produzido para proteger uma ordem. E Kate Abramson (2014), ao analisar o gaslighting, descreve o mecanismo que torna a negação tão corrosiva: não basta contradizer o que a pessoa diz, é preciso fazê-la duvidar de que seu próprio testemunho tenha valor. Quando uma figura pública de grande alcance diz, em escala de milhões, que a queixa é vitimismo, ensina a mulher que hesita diante de uma delegacia a calar-se antes de falar.

Sara Ahmed (2017) tem uma imagem boa para isso: a “feminista estraga-prazeres”. Quem nomeia o problema é tratada como se fosse o problema. A mesa estava tranquila até alguém dizer, em voz alta, o que todos sabiam. A negação pública da misoginia inverte a cena: o estraga-prazeres não é mais quem nomeia, é quem sofre.

VI. Presença não é interesse

Resta o argumento democrático que me parece o mais interessante, porque o feminismo mesmo o ajudou a construir. Hanna Pitkin (1967) distinguiu duas maneiras de representar. A descritiva é a semelhança: o representante se parece com os representados. A substantiva é a ação: ele atua em favor dos interesses de quem o elegeu. Anne Phillips (1995) defendeu uma “política de presença”, argumentando que não basta ter boas ideias sobre as mulheres, é preciso ter mulheres no recinto. Jane Mansbridge (1999) ofereceu a versão mais cuidadosa, condicionando a vantagem da presença a contextos específicos, como desconfiança histórica e interesses ainda em formação. E Childs e Krook (2009) já alertavam que o número de mulheres numa casa legislativa nada diz, por si, sobre o que essas mulheres farão: o que importa são os “atores críticos”, sejam homens ou mulheres, que de fato empurram a agenda.

A consequência é incômoda para quem comemora cada recorde de cadeiras femininas. Presença sem substância pode virar maquiagem institucional: o parlamento exibe mais mulheres no mesmo momento em que desmonta o arcabouço protetivo que elas conquistaram. Flávia Biroli (2018) e Luis Felipe Miguel (2014) mostram, com paciência de pesquisadores, que a desigualdade de gênero na política brasileira é estrutural e não se esgota nos números. Mona Lena Krook (2020) acrescenta o outro lado da moeda: a violência política contra mulheres, tipificada no Brasil em 2021, funciona justamente para afastá-las do espaço público. Se o vocabulário que permite nomear essa violência for descartado, a denúncia passa a soar como lamúria.

VII. Contra mim mesma

Seria desonesto encerrar sem testar o argumento contra suas objeções.

A primeira é que quase dois milhões de paulistas escolheram essa parlamentar, e tratá-los como vítimas de feitiço é arrogante. É verdade. Mas legitimidade eleitoral não é imunidade intelectual: dizer que um mandato é válido não equivale a dizer que suas teses sejam verdadeiras. Hannah Arendt (1967) lembrava, em “Verdade e política”, que os fatos são frágeis, que não dependem de maioria e que a mentira organizada pode, com o tempo, substituir o mundo factual por outro. Uma democracia aguenta divergência sobre valores, mas precisa de um piso comum de fatos.

A segunda objeção: não cabe à crítica exigir lealdade de gênero. Concordo. A mulher que discorda do feminismo não “trai” ninguém, e esperar dela uma disciplina de grupo é, aliás, uma forma de essencialismo. A crítica que faço é ao conteúdo e aos efeitos de um discurso, não à sua origem.

A terceira: talvez ela quisesse dizer outra coisa, e a frase tenha saído de um corte de vídeo. Pode ser. Por isso a fala reportada deve ser conferida no original, com contexto. Mas o argumento deste ensaio não depende de um episódio. Depende de um padrão, o da negação como estratégia, que hoje atravessa partidos, plataformas e fronteiras.

VIII. O Espelho

Há, no fim, uma imagem que Virginia Woolf (1929) deixou em Um teto todo seu: durante séculos, as mulheres serviram aos homens como espelhos que devolviam a figura masculina em tamanho dobrado. Um espelho só funciona se não pensa em si mesmo. A grande conquista feminista foi, talvez, ter parado de refletir. O risco do álibi de saia é o contrário: reabilitar o espelho, só que agora com votos, microfone e algoritmo.

Quando uma mulher pública disser que a misoginia ou o feminicídio não existem, o que ela fala de si mesma é um dado biográfico, não um argumento. Os argumentos estão nos anuários, nos inquéritos e nas casas em que alguém não chegou a tempo.

Referências

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Tamy Simões

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