Setembro Surdo: um mês de história, resistência e inclusão

Setembro Surdo: um mês de história, resistência e inclusão

Período reúne datas importantes para a comunidade surda e reforça a valorização da Libras, da Cultura Surda e do direito à acessibilidade

Setembro é um mês de grande significado para a comunidade surda. Mais do que reunir datas comemorativas, o Setembro Surdo representa um período de memória, resistência e valorização das Línguas de Sinais, da Cultura Surda e da luta por uma educação acessível e bilíngue.

A história da educação de surdos também é marcada por momentos de exclusão. Entre 6 e 11 de setembro de 1880, o Congresso de Milão privilegiou o método oral na educação de pessoas surdas e desvalorizou o uso das Línguas de Sinais, deixando marcas na trajetória educacional da comunidade.

No Brasil, a mobilização em defesa de uma educação bilíngue ganhou força ao longo dos anos. Em 9 de setembro de 2009, o Seminário Nacional em Defesa das Escolas Bilíngues para Surdos reuniu representantes de 25 estados brasileiros, fortalecendo a defesa de uma educação que reconheça a Libras e respeite as especificidades linguísticas dos estudantes surdos.

Entre 20 e 26 de setembro, a Semana Internacional dos Surdos tem a intenção de promover a conscientização sobre a história, as línguas, a cultura e os direitos das pessoas surdas. No dia 23, é celebrado o Dia Internacional das Línguas de Sinais. Já em 26 de setembro, o Brasil celebra o Dia Nacional do Surdo, data relacionada à criação, em 1857, da primeira instituição brasileira voltada à educação de surdos, atualmente conhecida como Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). O mês se encerra em 30 de setembro, data internacional dedicada aos surdos e aos profissionais tradutores e intérpretes.

LIBRAS COMO LÍNGUA, IDENTIDADE E ACESSO

Para Malu Silva, mestre em Educação, professora bilíngue e tradutora-intérprete de Libras, o Setembro Surdo representa “memória, resistência, valorização das Línguas de Sinais, Cultura Surda e luta pelo direito a uma educação acessível e bilíngue”.

A valorização da Libras também está diretamente relacionada à identidade e à participação social das pessoas surdas. Para Sylvia Lia Grespan Neves, docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), o mês representa um momento de celebrar a inclusão, promover a acessibilidade e reconhecer a Libras como instrumento fundamental de comunicação e empoderamento da comunidade surda.

Foto: Acervo Pessoal

Mais do que possibilitar a comunicação, o acesso à língua está relacionado à forma como a pessoa surda compreende o mundo, estabelece relações, aprende e participa da sociedade.

AS EXPERIÊNCIAS DAS FAMÍLIAS

Para as famílias de pessoas surdas, essa realidade se torna ainda mais presente no cotidiano. João Santt, pai de Victor, um jovem surdo, compartilha uma experiência que vivenciou quando o filho tinha apenas dois anos.

Foto: Acervo Pessoal

Enquanto a criança brincava na rua e se comunicava por meio de sinais, uma mulher que passava pelo local perguntou se ele era surdo. Ao perceber a interação da criança, a mulher contou que o homem que a acompanhava também era surdo. João tentou se comunicar com ele por meio da Libras, mas não houve resposta. Segundo o relato, aquele homem havia enfrentado dificuldades de escolarização, não utilizava Libras e acabou vivendo uma situação de profundo isolamento social.

A experiência levou João a refletir sobre a importância do acesso à língua desde os primeiros anos de vida. Para ele, a Libras não deve ser vista apenas como uma ferramenta de comunicação, mas como uma forma de acesso ao conhecimento, às relações e à convivência.

“Mais do que uma forma de comunicação, ela permite que a pessoa surda tenha acesso ao mundo, às relações, ao conhecimento e à convivência”, afirma.

João também destaca que a acessibilidade não deve se limitar à presença da pessoa surda em determinados espaços.

“Acessibilidade não é apenas permitir que o surdo esteja presente. É permitir que ele possa compreender, se expressar, aprender, se relacionar e pertencer.”

Foto: Acervo Pessoal

Para Amanda Mariano Oliveira, mãe de Ravi, uma criança surda implantada, o Setembro Surdo representa um período de resiliência e orgulho, marcado pela determinação e pela luta da comunidade surda. Ela destaca que as famílias também enfrentam diferentes barreiras e que o mês contribui para ampliar a visibilidade e estimular a reflexão sobre inclusão e acessibilidade.

“É um mês para que as pessoas reflitam e tenham empatia e, principalmente, respeito pela história como um todo da comunidade surda”, afirma Amanda.

Para ela, as conquistas alcançadas ao longo dessa história devem ser lembradas ao lado dos desafios que ainda permanecem.

“Inclusão não é um favor. Inclusão é história, história de muita luta, muito preconceito enfrentado, mas também de barreiras que, aos poucos, foram quebradas.”

Foto: Acervo Pessoal

Priscila Rios Reis, mãe de Helena, uma criança surda implantada, também relata que o Setembro Surdo tem um significado especial para sua família. Ela conta que, no início, tinha medo de como seria o futuro da filha e de como o mundo lidaria com as dificuldades que poderiam surgir.

Com o tempo, porém, a convivência com o implante coclear e a inclusão da Libras na rotina familiar contribuíram para uma nova perspectiva.

“Aprendi e tenho certeza de que a Helena, através do seu olhar e gestos, vai descobrir um mundo cheio de possibilidades”, afirma.

Para Priscila, a experiência também mudou sua compreensão sobre comunicação e voz.

“Um surdo não precisa ouvir para ser ouvido, ele não precisa falar para ter voz, ele fala através do coração.”

UM MÊS PARA CONHECER, RECONHECER E INCLUIR

Para Roberto Del Corvo, CEO do Centro Educacional de Idiomas Libras (ceiLibras), o Setembro Surdo é uma oportunidade para ampliar o conhecimento da sociedade sobre a comunidade surda e sua história.

“O Setembro Surdo é um convite para conhecer a história, reconhecer a Libras como língua, valorizar a Cultura Surda e compreender que acessibilidade e inclusão começam pelo respeito à diferença linguística”, destaca.

Assim, o Setembro Surdo vai além da celebração de datas. É um período para conhecer uma história marcada por lutas e conquistas, valorizar a Língua Brasileira de Sinais, reconhecer a diversidade linguística e reforçar a importância de garantir às pessoas surdas o direito de aprender, se comunicar, participar e pertencer.

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