O POVO GUARANI
Palavra, Caminho e Sabedoria Ancestral
Há algum tempo tive a oportunidade de falar sobre o povo Guarani para estudantes do curso de Pedagogia da Universidade São Francisco.
E comecei fazendo uma espécie de convite:
“Hoje vamos nos aproximar de um povo que guarda a sabedoria da terra, o povo da palavra viva — o povo Guarani.”
Não queria apenas falar sobre indígenas. Queria falar com eles, ainda que por meio daquilo que seus ancestrais nos deixaram: a palavra, os mitos, a memória, a relação com a terra e uma maneira de olhar para o mundo que nós, tão modernos, às vezes esquecemos.
O povo Guarani possui uma história milenar e uma cultura profundamente ligada à natureza. Para eles, a existência não parece caber naquela velha mania ocidental de separar tudo em gavetas: homem de um lado, natureza do outro; corpo aqui, espírito acolá; passado numa prateleira e futuro em outra.
Tudo parece conversar.
A terra não é simplesmente um pedaço de chão.
A palavra não é apenas um som.
A vida não é apenas aquilo que começa quando nascemos e termina quando morremos.
Existe uma relação de pertencimento, de responsabilidade e de equilíbrio.
E talvez seja justamente aí que comece a nossa primeira aula.
Os Guarani vivem em comunidades tradicionalmente relacionadas ao conceito de tekoha, palavra que carrega a ideia de território onde se realiza um modo de ser, de viver e de existir. Não se trata apenas de morar em determinado lugar. É viver aquele lugar.
É pertencer.
É cuidar.
É preservar a memória dos que vieram antes e garantir que os que ainda virão possam continuar caminhando.
Enquanto nós discutimos, muitas vezes com extrema sofisticação acadêmica, sustentabilidade, preservação ambiental e qualidade de vida, há povos que carregam esses conceitos na própria experiência cotidiana.
Talvez não tenham inventado a palavra “sustentabilidade”.
Mas sabem muito bem o que ela significa.
A tradição oral também ocupa um lugar fundamental na cultura Guarani. A palavra transmite conhecimento, memória, histórias, ensinamentos e valores.
E aqui aparece outra palavra que me interessa particularmente:
educação.
Porque entre os Guarani, aprender não parece ser apenas acumular informações.
Aprender é viver.
E aí eu perguntaria aos meus alunos — e agora pergunto a você, leitor:
Na nossa escola, será que o aprender ainda tem alguma ligação com o viver?
Ou transformamos o conhecimento em uma coleção de respostas que serão esquecidas tão logo termine a prova?
Talvez tenhamos muita informação e pouca sabedoria.
Talvez saibamos procurar respostas no celular, mas tenhamos desaprendido a ouvir a palavra do outro.
Talvez tenhamos criado escolas cada vez mais modernas e, ao mesmo tempo, esquecido uma coisa muito antiga:
ninguém aprende sozinho.
Os Guarani nos ensinam que educar também pode ser caminhar juntos.
Com o coração aberto à palavra.
Com respeito à terra.
Com atenção ao outro.
E com a consciência de que o conhecimento não começa necessariamente dentro de um livro.
Às vezes ele começa numa história contada pelo avô.
Numa palavra repetida de geração em geração.
Num canto.
Num silêncio.
Ou simplesmente na observação de uma árvore.
A língua que resiste
E existe ainda outra riqueza que merece nossa atenção: a língua Guarani.
No Paraguai, ela ocupa um lugar central na identidade cultural e nacional. É uma língua viva, falada no cotidiano por milhões de pessoas e compartilhada com o espanhol como uma das línguas oficiais do país.
Para nós, brasileiros, aprender Guarani pode significar muito mais do que aprender algumas palavras de um idioma vizinho.
Pode significar aproximar-se de uma cultura que também faz parte da nossa história.
Basta olhar para o mapa.
Itaipu.
Iguaçu.
Paraná.
E tantos outros nomes espalhados pelo território brasileiro.
Falamos palavras de origem indígena todos os dias, muitas vezes sem sequer perceber.
A língua está no mapa.
Está nos nomes das cidades.
Está na paisagem.
Está na nossa história.
E, sobretudo, está viva.
Para quem vive ou trabalha nas regiões de fronteira, conhecer o Guarani também pode ser uma forma concreta de aproximação com os vizinhos paraguaios. Para quem estuda relações internacionais, educação, cultura, comércio ou turismo, aprender a língua significa abrir uma porta que nenhuma tradução automática consegue substituir completamente.
Porque idioma não é apenas ferramenta de comunicação.
Idioma é uma maneira de enxergar o mundo.
E talvez seja por isso que aprender Guarani seja também uma forma de aprender sobre nós mesmos.
E o que nós aprendemos?
Quando falei sobre o povo Guarani aos futuros pedagogos, não queria transformar aquela aula em um desfile de curiosidades sobre um povo distante.
Queria provocar uma pergunta.
Se existem povos que conseguiram preservar, através dos séculos, uma relação tão profunda entre palavra, comunidade, território, memória e aprendizagem…
o que aconteceu conosco?
Em algum momento, talvez tenhamos confundido educação com informação.
Confundimos conhecimento com diploma.
Confundimos desenvolvimento com consumo.
E chegamos ao século XXI carregando computadores no bolso e, às vezes, uma enorme dificuldade para conversar com quem está sentado ao nosso lado.
Talvez o povo Guarani tenha algo a nos ensinar justamente porque ainda consegue nos lembrar de uma coisa que nossa pressa esqueceu:
a vida é uma caminhada coletiva.
Ninguém caminha sozinho.
A palavra precisa ser compartilhada.
A terra precisa ser cuidada.
A memória precisa ser preservada.
E o conhecimento, para continuar vivo, precisa passar de uma geração para outra.
Por isso, quando penso naquela aula de Pedagogia, percebo que talvez eu não estivesse ensinando tanto quanto imaginava.
Talvez estivesse apenas tentando abrir uma pequena janela.
E, pela janela, apareceu um povo que continua caminhando.
Um povo que continua falando.
Um povo que continua ensinando.
E que nos lembra que educar não é apenas preparar alguém para o futuro.
É ensinar a caminhar sem esquecer de onde viemos.
Que esta luz continue acesa dentro de nós:
na palavra,
no cuidado com a vida,
no respeito ao outro,
na defesa da memória
e, principalmente,
no desejo de continuar aprendendo.
Porque talvez a maior sabedoria ancestral seja justamente esta:
quem pensa que já sabe tudo parou de caminhar.
Pedro Troche Gonzalez
Professor de Línguas Neolatinas — Português, Espanhol e Italiano — e Guarani


