Naomi Wolf publicou O Mito da Beleza em 1991. A tese era simples e, para a época, foi um soco no estômago: à medida que as mulheres conquistavam diploma, salário e cadeira em posições de poder, a cultura inventava um novo dispositivo de contenção. Se já não dava para trancar a mulher em casa, trancava-se ela no espelho. Wolf mapeou esse mecanismo em cinco frentes, trabalho, cultura, religião, fome e faca, e mostrou como a exigência estética funcionava como um imposto cobrado só de um lado, uma segunda jornada somada a todas as outras. É um livro escrito com raiva, e teve o mérito raro de dar nome político a uma sensação que até então cada mulher achava que era só sua, uma neurose individual em vez de um sistema.
Trinta e cinco anos depois, a pergunta que interessa não é se o livro envelheceu bem como objeto literário. É outra: o modelo explicativo que Wolf ofereceu, beleza como arma disparada contra o avanço das mulheres, ainda dá conta do que acontece quando eu abro o Instagram às onze da noite e saio de lá sentindo que meu rosto é um rascunho? Em parte, sim. Na parte que mais importa hoje, não sozinho.
Comecemos pelo que já estava furado em 1991. O livro de Wolf fala de “a mulher” como categoria homogênea, uma mulher branca, americana, de classe média, cuja experiência é tratada como universal. Quando a tradução chegou ao Brasil pela Rosa dos Tempos, em 2018, parte da recepção crítica notou isso na hora: o livro não discute o que significa esse mito para mulheres negras, para quem a proximidade com o padrão europeu de beleza não é vaidade, é sobrevivência econômica, é a diferença entre conseguir ou não um emprego que exija “boa aparência”. A crítica que bell hooks já vinha fazendo desde os anos 1980 ao feminismo branco de classe média, o de tomar a experiência de um grupo específico como se fosse a experiência de todas as mulheres, recai inteira sobre esse livro. Wolf via o espelho como arma contra as mulheres. Não via que o espelho, para mulheres negras, indígenas, pobres, sempre foi também arma de raça e de classe, e que essas camadas não se somam, elas se multiplicam.
Vale colocar Wolf ao lado de outra autora da mesma geração, porque a diferença ajuda a entender o que falta ao livro. Em 1993, Susan Bordo publicou Unbearable Weight, também sobre o corpo feminino como campo de disputa cultural, mas usando Foucault em vez de linguagem de conspiração midiática. Onde Wolf enxerga uma indústria e seus agentes decidindo, de fora, o que as mulheres devem odiar em si mesmas, Bordo descreve um poder difuso, sem sede central, que a gente aprende a exercer sobre o próprio corpo até deixar de perceber que está sendo exercido. Essa diferença de registro teórico é exatamente o que separa 1991 de 2026. O mito da beleza de Wolf ainda precisava de uma revista, um editor, uma campanha publicitária, alguém do lado de fora escolhendo a imagem impossível e empurrando ela goela abaixo. A cultura estética das redes sociais dispensou o intermediário.
É aqui que entra o conceito que talvez explique o Instagram melhor do que Wolf conseguiria em 1991: o de “Instagram Face”, cunhado pela jornalista Jia Tolentino em um ensaio de 2019 na New Yorker. Tolentino descreveu um rosto específico que passou a se repetir entre influenciadoras ao redor do mundo, lábios cheios, maçãs do rosto altas, olhos puxados, nariz pequeno, pele sem poro, um rosto que não pertence a nenhuma etnia e a todas ao mesmo tempo, produzido por filtros de Snapchat e Instagram e depois replicado em consultórios de cirurgia plástica. Em uma reportagem de julho deste ano, Tolentino voltou ao tema para mostrar como esse padrão, sete anos depois, deixou de ser estética de influenciadora e virou parâmetro de otimização geral, puxado agora por inteligência artificial. O detalhe mais incômodo dessa atualização é racial: quando se pede a um gerador de imagens uma “mulher bonita”, o resultado tende a ser quase sempre branco, jovem, magro, mesmo reunindo traços que a maquiagem da indústria descreve como “influência sul-asiática nas sobrancelhas, afro-americana nos lábios, caucasiana no nariz”. A inteligência artificial aprendeu a beleza raspando o próprio Instagram, e devolveu, purificada em código, a mesma hierarquia racial que já estava ali, só que agora sem ninguém específico para responsabilizar. Wolf escreveu contra editores de revista. Contra quem se escreve quando o editor é um modelo estatístico treinado em bilhões de fotos e ninguém no prédio decidiu, sozinho, que rosto vale mais?
A cultura de filtro também inverteu um detalhe estrutural do argumento original de Wolf. Em 1991, a mulher se media contra uma imagem alheia, uma modelo, uma atriz, um rosto que ela sabia, ao menos racionalmente, que não era o dela. Hoje, boa parte da comparação acontece contra a própria imagem, só que editada. Cirurgiões relatam, em número crescente, pacientes que chegam ao consultório não com a foto de uma celebridade, mas com o próprio rosto passado pelo filtro do aplicativo, pedindo para ficar parecido com a versão que o software já tinha inventado deles. O termo clínico para isso, “disforia do Snapchat”, vem sendo estudado desde 2018 e a literatura em periódicos como Aesthetic Surgery Journal e Frontiers in Public Health confirma uma correlação consistente entre uso de filtro de edição facial e sintomas de transtorno dismórfico corporal. Isso é o mito da beleza levado para dentro de casa, privatizado, personalizado, e por isso mais difícil de nomear como imposição externa: como brigar com uma indústria quando a imagem impossível que te persegue tem a sua própria cara?
No Brasil, essa mecânica tem uma camada a mais, e é justamente a camada que Wolf nunca viu porque não precisava ver. O antropólogo Alvaro Jarrín, em A Biopolítica da Beleza: Cidadania Cosmética e Capital Afetivo no Brasil, publicado pela Editora Fiocruz, reconstrói como a beleza virou aqui um projeto de Estado desde o embranquecimento higienista do início do século vinte, passando pela expansão da cirurgia plástica gratuita como suposto direito de saúde pública, até o meme “Eu Não Era Feio, Era Pobre”, que circulou nas redes há alguns anos, mostrando fotos de antes e depois de celebridades que ficaram “bonitas” à medida que tiveram acesso a dinheiro. Jarrín chama a beleza de “capital afetivo”, uma moeda imaterial que mapeia e reforça hierarquia de raça e classe através de gestos que parecem só estética, mas nunca são só estética. Essa é a peça que falta no modelo de Wolf, e é justamente a peça que explica o Instagram brasileiro: não é só que as mulheres competem entre si em vez de se organizar contra a exigência comum, como Wolf já apontava. É que essa exigência chega com preço de rinoplastia, de alisamento, de bronzeamento artificial calculado para não passar de determinado tom, e o preço não é o mesmo para todo mundo.
Nem tudo nessa história é só captura. Pesquisadoras como Ivana Bentes, em artigo publicado na revista Matrizes da USP, vêm mapeando também as estéticas subversivas que nascem dentro das mesmas plataformas, corpos gordos, corpos com deficiência, corpos negros sem alisamento ocupando o mesmo feed que produz o padrão hegemônico, disputando visibilidade com as ferramentas que também as oprimem. Wolf, no fim do livro, já apostava que o caminho era a ação coletiva, mulheres se recusando a competir. Trinta e cinco anos depois, essa recusa existe, só que é uma luta corpo a corpo com um algoritmo que aprende a te seguir mais rápido do que você aprende a resistir a ele.
Há ainda uma ironia que não dá para deixar de fora, porque é do tipo que qualquer boa crítica cultural precisa nomear. A mulher que escreveu, com tanta lucidez, sobre como narrativas fabricadas conseguem sequestrar o juízo de quem está exposto a elas repetidamente, passou a década seguinte à pandemia produzindo exatamente esse tipo de narrativa, só que sobre outro assunto. Naomi Wolf foi banida do Twitter em 2021 por espalhar desinformação sobre vacinas, tornou-se presença fixa no podcast de Steve Bannon, endossou publicamente Donald Trump e Robert Kennedy Jr., e teve o lançamento americano de seu livro Outrages cancelado depois que um jornalista, ao vivo, numa entrevista de rádio britânica, apontou erros graves na leitura que ela fazia de fontes históricas do século dezenove. Não é golpe baixo trazer isso à tona. É dado relevante para quem pensa mito e manipulação de imagem: a mesma autora que nomeou como a beleza distorce o juízo alheio parece ter caído, mais tarde, na versão política do mesmo mecanismo, um sistema fechado de crenças que se reforça sozinho e resiste a qualquer fato que ameace derrubá-lo. Isso não invalida o livro de 1991. Só prova, de um jeito meio sinistro, que ela entendia o funcionamento da armadilha de dentro, mesmo sem conseguir, depois, escapar de uma versão diferente dela.
Então, O Mito da Beleza ainda explica a cultura estética das redes sociais? Explica a gramática emocional, sim, e continua sendo a porta de entrada certa: beleza como trabalho disfarçado de escolha, como distração disfarçada de cuidado de si, como competição que impede solidariedade. Mas o livro sozinho já não dá conta da engenharia. Falta Bordo para explicar por que a vigilância virou hábito interno em vez de imposição externa. Falta Tolentino para nomear o rosto específico que o algoritmo aprendeu a preferir. Falta Jarrín para mostrar que, no Brasil, esse rosto sempre teve cor e classe, mesmo quando ninguém dizia isso em voz alta. Wolf nos deu a primeira palavra. Ela só não podia prever que, trinta e cinco anos depois, quem ia continuar a frase não seria mais um editor de revista, seria um modelo de linguagem treinado para achar que sabe o que é bonito.
O Mito da Beleza aos 35: o espelho aprendeu a nos vigiar sozinho


