Ter bondade é ter coragem!

Devia ser apenas mais um dia comum. Talvez ela tivesse despertado de manhã com muita preguiça de ir pra escola. Talvez gostasse, quisesse mesmo rever os amigos, colocar a conversa em dia e de quebra, ainda aprender. Não sei, sabemos muito pouco sobre aquela menina.

Sabemos pouco, mas compartilhamos com ela sua aflição. Eu, ao menos, compartilho. Não sei bem ao certo o porquê, mas os insetos todos, inclusive alguns ainda não catalogados, curtem muito meu sangue. Uma atração doentia pelo tipo O+? Só pode ser… Pode haver mil pessoas num recinto, os bichinhos vêm em mim. Já levei picada de tudo que é tipo de abelha, de vespa, e essa, juro por Deus, me apresentou à dor mais lancinante que já senti na vida! Tenho reações alérgicas bem fortes, que quase sempre só cessam depois de altas doses de corticoide na veia. A vespa, essa querida, me rendeu corticoide na veia e em casa, por uma longa semana. Odeio corticoides, odeio medicamentos em geral, essas drogas que a indústria farmacêutica criou para nos anestesiar.

Eu sei, estou sendo meio radical, mas a verdade é que evito remédio ao máximo, até não conseguir mais. Temo mais seus efeitos colaterais que o alívio que eles podem proporcionar.

Então, sim, eu consigo me imaginar no lugar daquela menina, cercada por um enxame de abelhas. E a sensação é desesperadora! Não sei se teria a mesma reação que ela? Acho que tentaria correr, me jogar no chão, não sei. Toda e qualquer coisa que pudesse me desvencilhar daqueles monstrinhos.

Devia ser apenas mais um dia comum. Talvez ele tivesse despertado de manhã com muita preguiça de fazer entregas. Talvez tivesse, por um instante, pensado conscientemente pelos perigos a que se expunha todos os dias no trânsito maluco da cidade e em como a maioria das pessoas não respeita os motociclistas ou nutre por eles alguma espécie de preconceito. Talvez estivesse apenas vivendo mais um dia, como a maioria de nós faz, sem pensar muito, apenas atendendo ao chamado do despertador do celular, para a vida, vivida quase que automaticamente.

Mas ele a viu. E por que a viu, não pôde simplesmente continuar seu caminho como se não a tivesse visto. Uma menina, indefesa, inerte, cercada por abelhas.

O que fazer? E essa pergunta já revela um pouco do caráter daquele moço, porque, sim, ele ia fazer alguma coisa para ajudá-la.

Usou o que tinha em mãos, um desodorante em spray que levava na mochila, na tentativa de espantar as abelhas e afastar a menina do perigo cada vez mais iminente. Levou quarenta ferroadas nesse inusitado resgate. A menina, que se encontra no CTI, aproximadamente cem.

Ele não precisava ter parado, ele não conhecia aquela menina, ele nem ao menos tinha as ferramentas adequadas para cessar o ataque, mas tinha o principal: bondade. E como diria o poeta Renato Russo: “Ter bondade é ter coragem”.

Devia ser apenas mais um dia comum. Talvez eu rolasse o feed do Instagram despretensiosamente, como hábito, como vício que isso se tornou. Talvez eu seguisse aquela página, porque ela oferece algum alento em meio a tantas notícias ruins com as quais somos bombardeados diariamente. Talvez eu precisasse recuperar um pouquinho da minha fé na humanidade, e consegui!

Obrigada, Vinícius!

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