Penso bastante numa foto de 1968: Mia Farrow sentada num ringue de boxe montado dentro dos estúdios da Paramount, cercada de fotógrafos, enquanto um cabeleireiro inglês corta o cabelo loiro e comprido dela até quase não sobrar nada. Foi tudo armado como espetáculo, Roman Polanski chamou a imprensa pra assistir, Vidal Sassoon cobrou cinco mil dólares por um corte que ele mesmo diria depois que valeria trinta. Virou notícia no mundo inteiro.
Só que por trás da encenação tinha uma mulher casada com Frank Sinatra, dezenove anos mais velho, que gostava dela do jeito que ele queria: loira, comprida, ali pro olhar dele. A lenda que ficou depois diz que ele viu o cabelo e ficou furioso, mandou ela deixar crescer de novo, ela não deixou, e pouco tempo depois ele mandou os papéis do divórcio. Anos mais tarde a própria Mia contou outra versão, que tinha cortado o cabelo sozinha, com uma tesourinha de unha, bem antes de ouvir falar de Vidal Sassoon. As duas histórias não batem nos detalhes. Concordam numa coisa só: um corte de cabelo quase derrubou um casamento inteiro. E sinceramente não importa muito qual versão é a verdadeira. O que fica é que todo mundo precisou dessa história, contou e recontou ela, porque ela dizia uma coisa real sobre aquele tempo. Pro marido, o comprimento do cabelo da mulher podia ser uma forma de posse. Pra ela, cortar podia ser a única forma de dizer não.
Isso não começou com a Mia. Cinquenta anos antes, quando as americanas ganharam o direito de votar e milhares de mulheres que tinham passado a guerra trabalhando em fábrica e hospital se recusaram a devolver a liberdade que tinham conquistado, uma geração inteira resolveu cortar o cabelo na altura do queixo. Chamaram elas de flappers, ou melindrosas, como escreviam os jornais daqui. Louise Brooks, Colleen Moore, Josephine Baker, nomes que hoje soam meio distantes mas que na época eram sinônimo de escândalo. Um corte que parecia bobagem, mas que jogava fora de uma vez o espartilho, o penteado preso, a trança comprida que levava a manhã inteira e uma empregada pra ajudar a arrumar. Cortar o cabelo ali era enterrar o século passado inteiro. Era dizer que aquela mulher vitoriana, presa, decorativa, esperando alguma coisa, tinha morrido junto com a guerra.
Só que a mesma tesoura que liberta também pode punir, e essa parte da história é bem mais difícil de contar. Em agosto de 1944, nas ruas da França recém-libertada, milhares de mulheres acusadas de terem se envolvido com soldados alemães foram arrastadas pra praça pública e tiveram a cabeça raspada na frente de todo mundo, muitas com suástica pintada ou marcada a ferro na testa, desfiladas entre vaias diante dos próprios vizinhos. Tem uma foto de Robert Capa de uma dessas mulheres em Chartres, carregando a própria filha recém-nascida no colo enquanto era escoltada por uma multidão enfurecida. Quem estudou esse episódio a fundo conta que a maioria delas não tinha feito nada além de tentar sobreviver e alimentar os filhos, numa época em que os maridos estavam presos em campo alemão, e que aquilo ali era vingança disfarçada de justiça, uma vingança que caía sobre o corpo das mulheres e quase nunca sobre os homens que também tinham colaborado. Tirar à força o cabelo de uma mulher fazia o oposto do que fez pras flappers, do que fez pra Mia. Não soltava ninguém de papel nenhum. Expulsava. Tirava dela, junto com os fios, o direito de ser olhada como alguém digno de respeito.
Isso também é história do corte de cabelo. A gente esquece fácil essa parte.
Quase quarenta anos depois de Mia Farrow, uma cantora irlandesa de vinte anos ouviu de um executivo da gravadora que precisava deixar o cabelo crescer e se vestir de um jeito mais feminino se quisesse vender disco. A Sinéad O’Connor foi no barbeiro no dia seguinte e raspou tudo. Manteve aquele corte, com variações, pelo resto da vida. Não como estratégia de marketing. Como resposta pra quem achava que tinha o direito de desenhar o corpo dela pro mercado. A gravadora queria vender uma imagem de mulher. Encontrou uma mulher que não queria vender imagem nenhuma.
Tem uma frase de Simone de Beauvoir que não sai da minha cabeça enquanto escrevo isso: a ideia de que ninguém nasce mulher, a gente se torna mulher aos poucos, através de gestos que a sociedade cobra até eles parecerem naturais. O cabelo é um desses gestos. Talvez o mais visível de todos, porque fica ali, na cabeça, impossível de disfarçar. E tem uma ironia que a Naomi Wolf comenta nos textos dela, a de que à medida que as mulheres foram ganhando espaço no mundo público, o controle sobre a aparência delas não afrouxou. Apertou. Como se a beleza tivesse virado uma coleira nova bem na hora em que as antigas estavam se soltando.
Hoje eu posso entrar num salão e pedir o comprimento que eu quiser sem que isso ameace meu casamento, meu emprego, a reputação de ninguém. Posso raspar a cabeça por vaidade, por luto, porque cansei, porque quis mudar, e ninguém vai decidir se aquilo é um escândalo. Essa banalidade toda é recente, e é frágil, e foi construída fio a fio: pelas melindrosas que enterraram a era vitoriana, pela Mia virando as costas pro marido que queria ela loira e comprida, pela Sinéad recusando o roteiro que a gravadora escreveu pra ela, e também, do lado mais sombrio dessa mesma história, pelas mulheres de Chartres, que mostram bem o que acontece quando é outra mão, não a nossa, segurando a tesoura. Escolher meu próprio corte de cabelo parece um gesto pequeno. Mas confesso que, depois de escrever tudo isso, ele não me parece mais tão pequeno assim.


