DEMOCRACIA S/A
Ou: os novos fiscais da consciência alheia
Por Pedro Troche Gonzalez
Mal terminaram as eleições, recolheram-se as bandeiras, desinflaram-se os balões e os derrotados começaram a contabilizar os estragos, eis que surge uma nova modalidade de empreendedorismo nas redes sociais: a fiscalização ideológica com direito a lista, exposição pública e ameaça de demissão.
Sim, senhoras e senhores! A democracia acaba de ganhar um departamento de Recursos Humanos. Não para contratar talentos, mas para identificar pecadores eleitorais.
O cidadão votou no candidato errado? Rua!
O comerciante simpatizou com o partido vencedor? Boicote!
O trabalhador manifestou sua preferência política? Prepare o currículo!
Aparentemente, inventaram uma nova modalidade de justa causa: crime de opinião com agravante de urna eletrônica.
É fascinante observar como certas pessoas defendem ardorosamente a liberdade de expressão, desde que o outro diga exatamente aquilo que elas gostariam de ouvir. Uma liberdade bastante peculiar: funciona maravilhosamente bem para os amigos e apresenta defeito de fabricação quando utilizada pelos adversários.
Nas redes sociais, os justiceiros de plantão distribuem nomes, fotografias e acusações com a desenvoltura de quem distribui panfletos na porta do supermercado. Não precisam de provas, testemunhas ou contraditório. Para quê? O tribunal já está instalado, o juiz já deu a sentença e a multidão aguarda apenas o endereço do réu.
E tudo isso em nome da democracia!
Ora, convenhamos: se o voto é secreto, como descobriram os pecadores? E, se descobriram, quem lhes concedeu o diploma de fiscal eleitoral, investigador particular e carrasco profissional?
Talvez a democracia tenha criado uma nova profissão: delator de urna alheia.
É preciso, entretanto, separar alhos de bugalhos. Cada consumidor tem o direito de escolher onde gastar seu dinheiro. Cada cidadão pode criticar governos, partidos e políticos. Mas organizar perseguições, ameaçar empregos e tentar destruir a vida de alguém por sua preferência eleitoral não é exercício de cidadania. É intolerância vestida de patriotismo, com crachá de moralidade e discurso de justiça.
E o mais curioso: muitos dos que hoje apontam dedos parecem ter esquecido que a democracia não é propriedade particular de partido algum. O resultado das urnas não transforma vencedores em santos nem derrotados em criminosos. Muito menos concede a alguém o direito de fazer uma devassa na consciência do próximo.
Afinal, o voto não é uma declaração de guerra. É uma escolha.
E escolhas podem ser diferentes. Ainda bem! Imagine que tragédia seria viver num país onde todos pensassem igual. Não precisaríamos de eleições. Bastaria um espelho, um megafone e um chefe de torcida.
E agora, o gran finale:
Cuidado, meus caros inquisidores de teclado!
Hoje vocês elaboram listas. Amanhã poderão estar nelas.
E, quando chegar a sua vez, talvez descubram que a democracia que tanto invocaram não aceita devolução, troca ou assistência técnica.
Porque, quando a intolerância vira regra, até o dono da lista corre o risco de acabar na lista.
E aí, não adianta reclamar com o gerente.
O gerente é a democracia. E ela não trabalha para vocês.
Paz e bem! 🙏


