2 de Novembro

2 de Novembro

São 7h. Um homem de fisionomia cansada arrasta as pernas, como se elas sustentassem um enorme peso. Aproxima-se lentamente pela alameda banhada pelo sol, ainda velado pela neblina. Chega ao portão, tira do bolso uma pesada chave e, com a mesma lentidão enervante, abre de par em par o grande portão do cemitério.

Lá dentro, o silêncio é tão profundo, tão tétrico, que chega a nos amargurar.

É nesse campo santo, em meio a tanta tristeza, que chegamos à conclusão de que nada somos; de que a vida não passa de um estado transitório e, por isso mesmo, devemos praticar o bem, auxiliar o próximo e procurar caminhar sempre de cabeça erguida. Não devemos alimentar preconceitos nem invejas, sentimentos pequenos que apenas empobrecem a alma.

É no cemitério que percebemos o quanto somos iguais. Distingue-se o pobre do rico apenas pelo aspecto exterior de suas campas. Enquanto alguns guardam seus entes queridos em faustosos mausoléus, adornados com coroas e candelabros de bronze, outros conformam-se com humildes sepulturas de cimento rústico, tendo como único ornamento flores singelas e velas de cera derretidas, acesas, nos dias santificados, em algum canto silencioso.

No meio da alameda coberta de cascalho, sob um sol claro e morno, aproximam-se dois homens, altos e robustos, empunhando pás e outros instrumentos. Param diante de uma sepultura humilde e começam a escavar. Em menos de cinquenta minutos, uma cova profunda e escura substitui a grama verde e uniforme.

Mais adiante, em um luxuoso mausoléu, uma das inúmeras gavetas é preparada para receber um corpo.

As horas passam. São 14h. O calor é intenso. O silêncio parece ainda maior.

De repente, um rumor incomum rompe a quietude. Carros e mais carros estacionam diante do grande portão.

O enterro vai entrar.

Homens de olhos vermelhos e congestionados, talvez pelo esforço de conter o pranto, carregam um grande caixão preto. Atrás deles, pessoas contritas e cabisbaixas seguem o cortejo. No meio de todos, amparada por dois senhores, uma velhinha de semblante santo chora desesperadamente. Acompanha à última morada seu único bem: o filho.

Logo atrás, outro féretro chega com as mesmas características do primeiro. Apenas as vestes de seus acompanhantes são diferentes: roupas caras substituem as modestas. Entre eles, uma mulher ainda jovem também se desespera. Acaba de perder o marido.

A dor é a mesma. Os sentimentos são idênticos. Separam-nos apenas as diferenças sociais — diferenças que nada significam dentro de um cemitério, onde todos se encontram, onde todos se igualam.

 

O dia 2 de novembro é consagrado, em grande parte do mundo cristão, desde o século X, à comemoração dos fiéis falecidos. O Dia de Finados é a data em que a humanidade rende homenagem aos seus entes queridos, levando flores aos cemitérios para enfeitar seus túmulos e elevar a Deus suas preces.

Embora frequentemente nos recordemos de parentes e amigos que partiram para a eternidade, é no dia 2 de novembro que as famílias se reúnem, especialmente nas capelas dos cemitérios, para renovar a saudade, a oração e a esperança.

Os cemitérios das grandes cidades recebem, nessa data, milhares de visitantes que se deslocam por todos os meios de transporte ao seu alcance para levar às campas de parentes e amigos suas lágrimas, suas flores e suas lembranças.

É preciso, porém, que voltemos nossos olhos e nossos pensamentos também para aqueles que, embora vivos, têm menos sorte. Que nos lembremos dos que sucumbem lentamente às dificuldades da existência, da pobreza, da solidão e das provações, sobretudo nos tempos difíceis que atravessamos.

Afinal, a maior homenagem que podemos prestar aos que partiram talvez seja viver com mais amor, mais solidariedade e mais compaixão pelos que permanecem ao nosso lado.

E que Deus, em sua infinita misericórdia, se compadeça de todos nós.

 

Professor Pedro Troche Gonzalez

Pedro Troche González

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