CUTUCANDO O VESPEIRO IV
O MEDO MORAVA AO LADO
Há coisas que não precisam bater à porta para entrar em nossa casa.
O medo, por exemplo, é educado. Às vezes entra pela janela, senta-se no sofá, toma um cafezinho e fica.
Durante a ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985, a repressão não se limitou às prisões, torturas, cassações e censura. Ela também se infiltrou na vida cotidiana. E talvez essa seja uma das faces menos visíveis — e mais perversas — de qualquer regime baseado no medo.
Não era necessário que houvesse um agente do governo em cada esquina.
Bastava a possibilidade de que houvesse.
E assim começaram os cuidados.
Cuidado com o que se dizia.
Cuidado com quem escutava.
Cuidado com quem perguntava demais.
Cuidado com o que se escrevia.
Cuidado até com a piada. (Haja vista com o que Milan Kundera nos conta no seu livro “A Brincadeira”)
Porque, em tempos de repressão, uma piada pode deixar de ser apenas uma piada.
O estudante aprendia rapidamente que certas perguntas poderiam trazer problemas. Professores precisavam conviver com censura, vigilância e perseguição. Sindicalistas eram observados. Militantes eram perseguidos. Pessoas eram presas por suas atividades políticas ou por suspeitas relacionadas a elas.
E havia também uma personagem muito peculiar nessa história: a delação.
Não precisava existir prova. Às vezes bastava uma informação, uma suspeita, uma acusação.
“Fulano está metido com isso.”
Pronto.
A frase podia viajar mais rápido que qualquer investigação.
E aí acontecia uma coisa curiosa: as pessoas começavam a vigiar umas às outras.
O Estado não precisava estar presente o tempo inteiro.
Às vezes, a própria sociedade fazia o serviço.
O medo produz esse fenômeno estranho: transforma vizinho em possível informante, colega em possível observador e até amigo em alguém diante de quem é preciso escolher cuidadosamente as palavras.
E, pouco a pouco, a pergunta deixa de ser:
“O que eu penso?”
E passa a ser:
“O que posso dizer?”
Parece uma diferença pequena.
Não é.
Porque quando uma pessoa começa a censurar a própria fala antes que alguém a censure, alguma coisa muito séria já aconteceu.
E talvez seja aí que apareça outra figura importante daquele período: o cidadão que preferia não saber.
Não necessariamente porque concordava com tudo.
Às vezes, simplesmente porque não queria problemas.
“Não me envolvo com política.”
“Cada um sabe da sua vida.”
“Melhor não falar disso.”
“Não quero saber.”
Era uma forma de sobrevivência.
Mas também era uma forma de silêncio.
E o silêncio, quando se torna coletivo, pode produzir uma aparência curiosa de normalidade.
A vida continua.
As pessoas trabalham.
Os ônibus circulam.
As lojas abrem.
As crianças vão à escola.
O futebol acontece.
A televisão transmite seus programas.
E, aparentemente, está tudo bem.
Aparentemente.
Porque, enquanto a vida seguia seu curso, havia pessoas desaparecendo, sendo presas, interrogadas, torturadas, censuradas, perseguidas ou afastadas de suas atividades.
Mas como explicar o medo?
Não se coloca o medo facilmente num relatório.
Não se fotografa o medo.
Não se mede o medo com uma régua.
Ele aparece no silêncio de uma conversa.
Na mudança repentina de assunto.
Na recomendação:
“Fala baixo.”
Na outra:
“Não comenta isso com ninguém.”
E naquela maravilhosa expressão brasileira, tão útil em certas épocas:
“Deixa pra lá.”
Deixar pra lá pode ser uma excelente estratégia para evitar uma discussão.
Mas há momentos na história em que deixar tudo pra lá significa permitir que a história passe por cima de nós sem sequer perguntarmos para onde ela está indo.
Não estou dizendo que todos deveriam ter sido heróis.
É fácil, décadas depois, sentado confortavelmente diante de um computador, imaginar que teríamos enfrentado tudo de peito aberto.
A realidade costuma ser bem menos cinematográfica.
Quem tinha família para sustentar, filhos para criar, emprego para preservar ou simplesmente medo de ser preso talvez calculasse cada passo.
Coragem não era uma mercadoria distribuída igualmente.
E é justamente por isso que precisamos olhar para esse período sem transformar ninguém em personagem de novela.
Havia os que resistiam.
Havia os que colaboravam.
Havia os que tinham medo.
Havia os que não entendiam.
Havia os que preferiam não entender.
E havia os que simplesmente continuavam vivendo, tentando passar por aqueles anos sem descobrir que, em algum lugar, alguém já havia colocado seu nome numa lista.
Talvez essa seja uma das grandes lições daquele período.
A repressão não precisava ocupar fisicamente todas as casas.
Bastava fazer com que as pessoas imaginassem que ela poderia chegar. Quando isso acontece, a vigilância deixa de ser apenas uma ação do Estado.
Ela passa a morar dentro das pessoas.
E talvez seja por isso que estudar aquele período seja tão importante.
Não para alimentar ódio.
Não para transformar a história numa disputa entre bons e maus.
Mas para compreender como uma sociedade pode, pouco a pouco, acostumar-se ao silêncio.
Porque a liberdade não desaparece necessariamente fazendo barulho.
Às vezes ela vai embora baixinho.
Primeiro, deixamos de perguntar.
Depois, deixamos de comentar.
Em seguida, deixamos de querer saber.
E, quando percebemos, já estamos dizendo:
“Melhor não mexer com isso.”
Ora, bolas!
Mas se ninguém mexer, quem vai contar?
E é justamente por isso que continuo cutucando o vespeiro.
Não porque eu goste de levar ferroada.
Muito pelo contrário.
É porque algumas histórias precisam continuar sendo contadas.
Principalmente aquelas que nos ensinam que o medo pode até mandar alguém calar a boca…
mas nunca deveria conseguir convencer uma sociedade inteira a esquecer como se fala.
Professor Pedro Troche Gonzalez


