Cutucando o vespeiro… I
OS PORÕES DO SILÊNCIO
Há lugares que não aparecem nos mapas.
Não têm placa na porta, endereço conhecido ou horário de funcionamento. Não recebem turistas, não aparecem nos cartões-postais e jamais serão lembrados como pontos turísticos de uma cidade.
Mas existiram. Conheci bem de perto!
E, durante a ditadura militar brasileira, alguns desses lugares ficaram conhecidos por aquilo que acontecia atrás de suas portas fechadas: prisões clandestinas, interrogatórios, violência e tortura.
Enquanto isso, lá fora, a vida continuava.
O ônibus passava. O comércio abria. O rádio tocava música. A televisão transmitia novelas. As pessoas iam trabalhar, namorar, jogar futebol, tomar cerveja e discutir o preço das coisas.
E talvez esteja aí uma das partes mais incômodas dessa história.
Enquanto alguns eram perseguidos, presos e torturados, uma grande parcela da sociedade simplesmente continuava vivendo.
Não estou dizendo que todos sabiam.
Mas alguns sabiam.
Outros desconfiavam.
E muitos preferiam não saber.
Porque existe uma forma muito confortável de silêncio: aquela em que não precisamos perguntar.
Quem desapareceu?
Por que desapareceu?
Para onde o levaram?
Por que a família não consegue encontrá-lo?
O que acontece dentro daquele prédio?
Perguntas demais podem trazer problemas.
E foi assim que o medo ganhou um aliado poderoso: a indiferença.
Nos porões da repressão, o silêncio era imposto pela força.
Do lado de fora, muitas vezes, ele era produzido pelo medo, pela conveniência ou pela famosa frase que atravessa gerações:
“Não me meto em política.”
Mas política também pode bater à porta de casa.
Pode levar alguém.
Pode deixar uma cadeira vazia à mesa.
Pode transformar uma mãe em alguém que passa noites esperando um filho que não volta.
Pode fazer uma família aprender a conviver com uma pergunta sem resposta.
A tortura não termina necessariamente quando a porta da cela se abre.
Há feridas que não aparecem no corpo.
Há pessoas que carregam durante décadas aquilo que aconteceu em algumas horas.
E há famílias que carregam a ausência durante uma vida inteira.
Por isso, quando falamos das atrocidades de uma ditadura, não deveríamos pensar apenas nos números, nos nomes dos mortos, nos presos, nos desaparecidos ou nos documentos históricos.
Precisamos pensar nas pessoas.
Porque nenhuma estatística sente medo.
Nenhuma estatística espera o filho voltar.
Nenhuma estatística acorda de madrugada lembrando de uma porta se fechando.
Era gente.
Gente com nome, sobrenome, sonhos, família, defeitos, virtudes, amores e uma vida que, de repente, passou a pertencer a quem tinha o poder de decidir quem podia falar e quem deveria calar.
E talvez seja justamente por isso que lembrar seja tão importante.
Não para alimentar ódio.
Não para reabrir feridas por prazer.
Não para transformar vítimas em bandeiras políticas.
Mas para que ninguém consiga, um dia, dizer:
“Eu não sabia.”
Porque uma sociedade que esquece seus porões corre o risco de construir outros.
E os porões mais perigosos nem sempre ficam debaixo da terra.
Às vezes, ficam dentro da consciência.
Paz e bem.
Professor Pedro Troche Gonzalez


