CUTUCANDO O VESPEIRO — III QUANDO ATÉ O SILÊNCIO PRECISAVA DE AUTORIZAÇÃO

CUTUCANDO O VESPEIRO — III

QUANDO ATÉ O SILÊNCIO PRECISAVA DE AUTORIZAÇÃO

 

Houve um tempo neste país em que não bastava saber escrever.

Era preciso saber o que não escrever.

Não bastava cantar.

Era preciso saber o que não cantar.

Não bastava fazer teatro, cinema, poesia, jornalismo ou qualquer outra coisa que envolvesse a perigosa mania humana de pensar.

Era preciso tomar cuidado.

Muito cuidado.

Porque havia gente encarregada de decidir o que o brasileiro podia ler, ouvir, assistir e, em certos casos, até pensar.

E olha que maravilha: alguém finalmente inventara uma profissão que dispensava talento artístico, literário ou jornalístico.

Censor.

O sujeito não precisava escrever a música, representar a peça, fazer o filme ou editar o jornal.

Bastava pegar a tesoura.

E cortar.

Durante a ditadura militar brasileira, a censura atingiu a imprensa de diferentes maneiras, inclusive por meio da censura prévia e da autocensura. Jornais de grande circulação e publicações da chamada imprensa alternativa foram atingidos.

E não era somente o jornalista que precisava tomar cuidado.

A tesoura também passeava pelas artes.

Peças de teatro, filmes, livros, músicas, programas de rádio e televisão entraram no radar da censura. Em 1970, um decreto-lei estabeleceu a censura prévia de livros, periódicos, filmes e espetáculos, ampliando o controle sobre aquilo que poderia chegar ao público.

Agora imagine a cena:

O compositor termina uma música.

Olha para a letra.

Está satisfeito.

Depois olha novamente.

E começa a pensar:

“Será que eles vão deixar?”

Pronto.

A censura já conseguiu uma de suas maiores vitórias.

Nem precisou aparecer.

O medo começou a trabalhar sozinho.

E talvez seja essa uma das coisas mais perversas da censura: quando ela entra na cabeça das pessoas, o censor pode até ir embora para casa.

A vítima continua censurando a si mesma.

Mas a música insistia.

A poesia insistia.

O teatro insistia.

O jornalismo insistia.

A arte tem esse defeito terrível para qualquer autoritarismo:

ela é teimosa.

 

O Arquivo Nacional preserva milhares de documentos produzidos pelos órgãos de censura, inclusive pareceres sobre peças teatrais, filmes, letras musicais, novelas e publicações.

E algumas dessas histórias chegam a parecer piada.

Só que não eram.

Há registros de 13.743 letras de músicas submetidas à censura entre 1964 e 1985. Entre elas estavam obras de nomes como Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Leci Brandão, Nei Lopes, Candeia e tantos outros.

Imagine um funcionário sentado diante de uma letra de samba, procurando ali algum perigo para a segurança nacional.

Às vezes o perigo estava numa palavra.

Às vezes, num verso.

Às vezes, numa metáfora.

E, pelo jeito, em algumas ocasiões, até uma palavra aparentemente inocente podia provocar uma reunião de emergência.

“Senhores, temos um problema: o sujeito colocou ‘porre’ na música!”

Não estou inventando.

Documentos preservados pelo Arquivo Nacional registram episódios desse tipo. Martinho da Vila contou que uma de suas letras quase foi censurada porque continha a palavra “porre”. O censor alegou que havia uma lista de palavras proibidas. Martinho pediu para ver a lista e descobriu que “porre” nem sequer estava nela.

É difícil não sorrir.

Mas é um sorriso meio atravessado.

Porque por trás do absurdo existe algo muito sério.

Quando o Estado decide quais palavras podem sair da boca de um cidadão, a discussão já deixou de ser sobre uma música.

É sobre liberdade.

E quando alguém precisa pedir licença para publicar uma notícia, representar uma peça ou cantar uma canção, o problema já não é cultural.

É político.

É humano.

É democrático.

Houve jornalistas perseguidos, publicações censuradas, artistas silenciados e brasileiros que precisaram deixar o país.

Alguns foram embora porque não podiam mais trabalhar livremente.

Outros porque permanecer significava correr riscos.

E muitos ficaram.

Continuaram escrevendo.

Continuaram cantando.

Continuaram representando.

Continuaram criando.

Porque, para a arte, existe sempre uma fresta.

E quando fecham as portas, ela entra pelas janelas.

Quando fecham as janelas, passa por baixo da porta.

Quando proíbem a palavra, ela vira metáfora.

Quando proíbem a metáfora, vira música.

Quando proíbem a música, vira silêncio.

E até o silêncio, quando é provocado pela censura, pode aprender a gritar.

 

Professor Pedro Troche Gonzalez

Pedro Troche González

Saber mais →

Deixe um comentário