Aprender a Desaparecer | sobre violência doméstica e a invisibilidade das mulheres autistas

Antes de aprender a ler, muitas meninas autistas já aprenderam a representar. Decoram o meio segundo de atraso que separa o riso alheio do próprio riso, para que a imitação pareça espontânea. Memorizam expressões faciais como quem memoriza um vocabulário estrangeiro: este rosto significa alegria, este outro, tédio, aquele, ali, o limite antes que alguém se irrite. Ensaiam, no espelho ou no silêncio do quarto, as frases que vão dizer no dia seguinte, prevendo as respostas possíveis como quem estuda para uma prova que nunca termina.

A literatura clínica chama isso de camuflagem social, ou masking. A psicóloga clínica Sarah Bargiela, com doutorado pela University College London, dedicou parte de sua pesquisa a entender esse fenômeno em mulheres autistas diagnosticadas tardiamente, e descobriu algo que deveria nos deter: a mesma habilidade que permite a essas mulheres atravessar salas de aula, entrevistas de emprego e jantares de família sem serem notadas como diferentes é, também, o que as torna mais vulneráveis ao abuso. Em um estudo de 2016 conduzido com Robyn Steward e William Mandy, Bargiela registrou relatos de mulheres que descreviam a própria tendência a presumir sinceridade no outro, a acreditar, por padrão, que um parceiro está dizendo a verdade, como uma fragilidade que parceiros abusivos aprendem a explorar com rapidez.

Não é ingenuidade. É gramática social herdada de uma vida inteira decodificando intenções alheias com esforço consciente, num mundo que não foi desenhado para essa forma de processar. Quando ler nas entrelinhas exige trabalho ativo, a manipulação se disfarça com facilidade de comunicação direta. Quando o corpo já gasta boa parte do dia suprimindo estereotipias, regulando a resposta a luzes e sons, sustentando contato visual que dói, sobra pouca energia para desconfiar de quem promete abrigo.

Essa exaustão tem nome. Pesquisadoras descrevem a fadiga de camuflagem como um estado quase permanente em muitas mulheres autistas adultas, um cansaço que não passa com uma noite de sono porque não é físico, é performático, é o custo de interpretar um papel o dia inteiro. E é justamente nesse estado de esgotamento que a coerção encontra menos resistência. Ceder já não parece derrota, parece alívio.

No Brasil, o atraso no diagnóstico agrava o quadro. Segundo levantamento do Mapa Autismo Brasil, um terço das mulheres com TEA recebe o diagnóstico depois dos vinte anos, contra apenas nove por cento dos homens. A pesquisadora Christine da Silva Schröeder, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atribui parte dessa desigualdade a um estereótipo persistente entre profissionais de saúde e dentro das próprias famílias: meninas quietas e obedientes raramente levantam suspeita. O resultado é uma geração de mulheres que chegam à vida adulta, e muitas vezes a relacionamentos abusivos, sem vocabulário algum para nomear o que sentem no corpo como perigo. Não sabem que são autistas. Sabem apenas que alguma coisa nelas sempre pareceu errada, e um parceiro controlador tem infinitas formas de usar essa dúvida a seu favor.

Há também o inverso, o momento em que o corpo autista finalmente reage, e essa reação é lida como prova contra a vítima. Uma crise sensorial, o que parte da comunidade chama de meltdown, pode ser confundida por policiais, familiares ou pelo próprio agressor com instabilidade ou agressividade da mulher, invertendo o relato da violência. Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil e pesquisador da área, insiste numa distinção que a sociedade ainda erra com frequência: uma crise decorrente de sobrecarga sensorial não é comparável a um ato de violência premeditada, são fenômenos de naturezas opostas. Mas em delegacias despreparadas, essa diferença raramente é reconhecida, e a vítima autista corre o risco de sair de um interrogatório sentindo que a culpa, mais uma vez, recaiu sobre ela.

Os números que existem, porque nem sempre existem, são duros. O Atlas da Violência de 2021, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que mulheres com deficiência somam sessenta por cento das vítimas de violência cometida contra pessoas com deficiência no país, e que mais de quarenta e dois por cento desses casos ocorrem dentro de casa, cometidos por quem deveria cuidar. Em audiência pública no Senado, a organização Essas Mulheres apresentou um dado ainda mais contundente: sessenta e oito por cento das denúncias de violência contra pessoas com deficiência têm mulheres como vítimas, número que sobe para oitenta e dois por cento quando o crime é sexual. E, no caso específico do autismo, o problema começa antes mesmo da estatística: o sistema de segurança pública brasileiro não categoriza separadamente as ocorrências envolvendo vítimas com TEA, o que significa que essas mulheres são contadas, quando são contadas, dentro de números genéricos que apagam sua condição e, com ela, as adaptações que sua escuta exigiria.

A intersecção com raça aprofunda ainda mais essa ferida. A pesquisadora Fabiana Correa Mateus, da Universidade Metodista de São Paulo, em estudo sobre mulheres negras autistas, descreve o capacitismo como uma estrutura de poder que atua junto ao racismo e ao sexismo, produzindo formas de sofrimento psíquico que a literatura acadêmica, ainda hoje, quase não nomeia. Ela recorre a Angela Davis para lembrar que raça, gênero e classe nunca operam isoladamente, e o mesmo vale, por extensão, para a neurodivergência: ser mulher, negra e autista não é somar três vulnerabilidades lado a lado, é habitar um cruzamento onde cada eixo intensifica o outro.

Talvez seja por isso que Marcela Lagarde, ao cunhar o conceito de cativeiro para descrever as formas como as mulheres são aprisionadas dentro de papéis que parecem naturais, ofereça uma chave tão precisa para pensar essas vidas. Porque, para muitas mulheres autistas, o cativeiro começa antes de qualquer parceiro entrar em cena, começa na infância, no treino diário de encolher-se para caber, e o relacionamento abusivo apenas herda uma arquitetura de contenção que a própria mulher já foi ensinada a construir dentro de si. bell hooks, em sua análise da cultura da dominação nas relações íntimas, descreve como o controle costuma se vestir de cuidado, como isolar alguém pode ser narrado como proteção, como vigiar pode ser narrado como zelo. Para uma mulher que aprendeu cedo a desconfiar do próprio julgamento social, essa narrativa encontra terreno fértil.

A lei brasileira, curiosamente, já descreve esse mecanismo com uma precisão quase clínica. O artigo 147-B do Código Penal, incluído pela Lei 14.188 de 2021, define violência psicológica como causar dano emocional à mulher por meio de ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização ou limitação do direito de ir e vir. Lida em voz alta, essa definição soa como um inventário de experiências que muitas mulheres autistas atravessam sem jamais ter um nome para elas, sem saber que o que vivem tem tipificação, tem lei, tem, portanto, também o direito de ser denunciado. O problema é que a lei não ensina, sozinha, a reconhecer o próprio cativeiro. Isso continua sendo trabalho de escuta, de formação profissional, de literatura que nomeie o que ainda não tem nome suficiente.

Existe uma expressão que pesquisadoras da área vêm usando para descrever esse apagamento acumulado: o ciclo de invisibilidade das mulheres autistas. Invisíveis no diagnóstico, que demora. Invisíveis na estatística, que não separa. Invisíveis na delegacia, que não escuta direito. Invisíveis, por fim, na própria narrativa que fazem de si mesmas, porque passaram a vida inteira sendo instruídas, ainda que sem palavras, a desaparecer um pouco para serem aceitas.

Escrevo isso pensando que talvez o oposto de desaparecer não seja aparecer sem mais, aos gritos, exposta. Talvez seja apenas permanecer. Ser ouvida sem precisar traduzir a própria dor para um idioma que os outros considerem legítimo. Se você é uma mulher autista lendo este texto e reconhece, em alguma frase aqui, um pedaço da própria vida, talvez o primeiro gesto de resistência seja simples assim: parar de duvidar do que o corpo já sabia fazer algum tempo, e procurar apoio, seja pela Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, seja por um serviço especializado em autismo perto de você. Nomear é o começo de deixar de desaparecer.

Tamy Simões

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