Quanto tempo faz que não se olha para as estrelas?
Não, não é somente erguer os olhos e saber que elas estão lá no alto. Não é apenas olhar despercebido, de relance, fortuitamente; é algo muito mais que isso. É decidir-se a convocar a própria alma para o sublime encontro, superior, mergulhando para o alto, como se fosse o atendimento ao chamado do universo sem dimensão.
As luzes das cidades estão em todas as nossas esquinas, tirando-nos o melhor propósito da atenção. Muitas iscas, muitas armadilhas, muita distração. Ou, quem sabe, apenas as marcas de um tempo com que insistimos em ocupar as periferias das essências esquecidas?
Mas, oh, felicidade! Ouvir, no profundo de si, o emblemático silêncio feito hino de instrumentos desconhecidos; a generosa companhia que nos empresta asas e despertares para erguermos os pés do chão!
Ficarmos mais leves que a racionalidade do impossível!
Mas, oh, felicidade! Tocar as estrelas com a prudência do respeito e da veneração; seguir os brilhos nas noites repletas de ensinamentos e vida!
Ficarmos mais leves, sem mais a possibilidade do chão!
Abarcar outros meios, transcender, tomar-se de coragem e ânimo, sopro de vida, hálito divino, para chorarmos de emoção com os cantos dos pássaros noturnos, dos esquecidos grilos, cânticos em orações das rãs e dos sapos.
Eis o convite para ver – e ouvir – estrelas, não para sermos poetas; é algo muito mais que isso. É decidir-se a convocar a própria alma para o sublime encontro, superior, mergulhando para o alto, como se fosse o atendimento ao chamado do universo sem dimensão. Sermos, enfim, poesia!


