Eu cresci nos anos 1970 assistindo televisão, pelo menos até os 15 anos e menos frequentemente após essa idade. Existiam programas interessantes, mas nada excelente. Já as propagandas eram ótimas, criativas, bem produzidas, feitas para um público alvo, que tinha poder aquisitivo e um nível intelectual razoável.
Lembro de prêmios de Washington Olivetto e Nizan Guanaes, acho que eram os dois principais produtores da época, existiam outros, mas não vou lembrar. Algumas propagandas se tornaram clássicas, como a do primeiro soutien, varias da Staroup, dos cigarros Hollywood, enfim, no Youtube, você pode encontrar as melhores propagandas dos anos 1970 e 1980.
Assim como a boa propaganda existiam os bons discursos políticos, onde grandes oradores, mostravam seu intelecto e sua ideologia.
Tanto os políticos dos anos 1970/80, quanto os publicitários, tinham em comum um grande intelecto, criado por excelente escolaridade, fruto de um projeto de Gustavo Capanema para o governo Vargas, e convencer as pessoas de votar, ou comprar era uma tarefa árdua. Exceto para ignorantes.
Essa divisão de boas propagandas para instruídos, ou ignorantes era observada nas diferenças dos comerciais da Globo X os da Tupi (depois SBT). Tanto a qualidade, quanto a produção tinham diferenças claras. Os eleitores de oposição a ditadura, ou apoiadores, também estavam divididos. Era claro.
As mesmas diferenças no padrão de qualidade das propagandas eram observados nos discursos políticos. Grandes oradores eram progressistas, com raras exceções, mais sociais, sóbrios, científicos, enquanto o discurso direitista era chulo, sem conteúdo e ênfase na pessoalidade. Embora existisse uma classe alienada, capaz de endeusar Jânio, Ademar de Barros, Maluf, posteriormente Collor e Bolsonaro. Para essas pessoas não adiantava você provar que o Opala era mais confortável que o Fusca, por exemplo, pois já estava no ideário delas, as vantagens do Fusca, a honestidade do Maluf, a competência do Collor e coisas do tipo.
Mas porque estou escrevendo sobre assuntos, que já cansei de falar e os resultados são neutros, perante uma sociedade totalmente imbecilizada?
É simples, tive filhos nos anos 1980, 90. 00 e 10, praticamente um por década. Minhas primeiras filhas, nascidas em 1987 e 1993 nasceram antes da internet, enquanto os dois meninos nasceram em 2009 e 1016, pós domínio das redes. A minha convivência com filhos e amigos dos filhos sempre foi grande. Eu sempre fui participativo e curioso pelos pensamentos e costumes de cada época.
Esses dias fiz uma propaganda e mostrei para meu filho menor, eu garanto que até era razoável, mas para os anos 1970 a 1999, no máximo. Meu filho Yuri ficou horrorizado, riu muito. Eu estava totalmente fora dos padrões, ou melhor, estou.
Mostrei para ele algumas propagandas antigas, da Hollywood, Staroup, Benetton, etc. Ele achou todos ruins, sem graça. Então lhe pedi para mostrar-me as propagandas que ele vê, nos programas que ele assiste no celular, ou na Tv a cabo. E eu achei horrível, vazias e sem conteúdo. Pareciam pegadinhas.
Fiquei um tempo pensando no assunto e comparei com discursos de políticos atuais. Imbecilidades e narrativas mentirosas, ou vazias. Ou seja, está sendo criada uma geração sem conteúdo até nas propagandas. Hoje basta ser integrante de um BBB e você vende produtos e imagens.
Coloquei esse aprendizado forçado na política e percebi que a esquerda está longe, cada vez mais distante do conteúdo programático atual. Existe uma fabrica de seguidores e likes, que caminham na escuridão, como uma procissão de fanáticos em direção ao abismo. Mas eles vão continuar na mesma direção e nada irá mudar esse caminho e, na beira do abismo, ainda vão acreditar que é possível levitar, ou que aquilo não é realmente o abismo, mas uma criação holográfica de esquerdistas.
Não adianta o Fernando Haddad fazer um belo discurso sobre educação, quando a educação se tornou apenas uma obrigação chata, antiquada, em preto e branco, numa sociedade onde uma dancinha do deputado Nicolas, tem mais curtidas. Lembrei de discursos de Franco Montoro sobre democracia, que nem seria ouvido hoje, onde a democracia se confunde com o direito de lutar por ditadura. Falar em liberdade se tornou o direito de mentir e poder acreditar na mentira. Por isso temos tantos pastores milionários e políticos canalhas, feitos Tarcísio, que vendeu a Sabesp e o paulista luta pelo direito de pagar mais caro pela água e não ter água. Onde um Zema tem o direito de aumentar em 300% seu salário e não dar aumento para professores. Onde um senador da rachadinha, cuja a única proposta, na vida, foi privatizar praias, e o pobre acredita que sua liberdade é pagar para curtir uma praia, embora não tenha direito.
Pesquisas que mostram o crescimento do Flavio Bolsonaro, são espelhos da ignorância, má fé, complexo, subserviência e esquizofrenia social. É a liberdade de lutar pela abolição dos próprios direitos, o rompimento total da civilidade.
Mas o que isso tudo tem em comum com a mudança na propaganda?
É simples. A ignorância se tornou um dado cultural. Ou seja, a falta de cultura, se tornando a cultura. Aí você vê cristãos torcedores de Israel e comemorando a morte de crianças em Gaza. Negros com as cotas e ignorando a escravidão. Professores contra o ensino. Pais contra a educação e minorias a favor do perseguidor. Uma síndrome de Estocolmo coletiva. Escravo aplaudindo Capitão do Mato. Então não dá para vender o melhor produto, um perfume, por exemplo, como uma grande produção do Washington Olivetto, se a namorada do Vini Jr. Falou no Tik Tok, que o produto dela é melhor e teve no mesmo dia 10 milhões de curtidas.
Mas vejam bem, nem tudo mudou, se o alcoólatra Jânio Quadros, estivesse vivo, falando numa igreja, contra a bebida, todos ainda acreditariam. Não se trata da verdade, mas o que a cognição dos ignorantes os leva acreditar. A ignorância, o domínio, o poder e a subserviência são atemporais.
O agro é prova cabal, e aí provo também que não é questão econômica, mas cultura, ou melhor, fruto do aculturamento, pois se Flavio Bolsonaro for eleito hoje, o agro vai a falência, e não precisa ser profeta e nem gênio. O Brasil voltaria a ser colônia ianque, haveria um rompimento imediato com os Brics, diminuiria a importação de insumos agrícolas da Rússia e cessaria a importação de grão pela China. O Agro norte americano é concorrente. É só um exemplo. Quer outro? Os aposentados passarão pelo mesmo projeto econômico aplicado na Argentina e como dizia o Guedes, enquanto eles estão distraídos, já ficamos dois anos sem aumentos.
E as propagandas? Faz uma dancinha e grita Mito!


