A guerra não tem rosto de mulher

Svetlana Alexievich já usou esse título antes de mim. Foi atrás das mulheres soviéticas que tinham ido pra guerra, enfermeiras, atiradoras, pilotas, mulheres que lavaram sangue de outros corpos nas trincheiras e depois voltaram pra casa sem medalha nenhuma, sem ninguém perguntando como tinha sido pra elas, especificamente pra elas. O título não é uma denúncia gritada. É quase um sussurro de constatação: a guerra que a gente conhece, a que aparece em livro de história e em discurso de condecoração, tem sempre cara de homem. As mulheres que atravessaram aquilo ficaram de fora do retrato, mesmo estando dentro da trincheira o tempo todo.

E o que eu queria escrever aqui é sobre como isso não morreu junto com aquela guerra. Muda o mapa, muda a arma, muda o nome do país que estampa capa de jornal, mas a forma como a guerra distribui quem morre e quem segura o resto continua basicamente a mesma coisa. O homem desaparece nas estatísticas de baixa. A mulher desaparece da história que se conta depois.

Tem um padrão que se repete em praticamente todo conflito armado que existe hoje, do Congo à Síria, de Mianmar ao Sudão: o corpo da mulher é tratado como parte do território a ser tomado. Não é exagero dos soldados, não é desvio individual de alguém descontrolado. É estratégia, documentada, estudada, com nome técnico em relatório de tribunal internacional. Usar violência sexual contra mulheres em guerra serve pra humilhar, pra desmoralizar, pra avisar ao inimigo que nada que ele ama está seguro. Isso está escrito desde os relatos mais antigos de guerra que a humanidade registrou, passou pelo genocídio armênio, passou pela ex-Iugoslávia, e a função simbólica continua intacta até hoje. O que mudou foi que, depois do tribunal pra ex-Iugoslávia, isso passou a ser reconhecido como crime de guerra em si, não só efeito colateral. Mas o reconhecimento chega devagar e a maioria desses casos nunca chega a denúncia nenhuma, porque a mulher que sobrevive a isso ainda tem que sobreviver ao estigma de ter sobrevivido.

Tem outra coisa que eu não consigo parar de pensar. Quando uma guerra estoura, a primeira imagem que circula é de homem armado. Alguns dias depois vem a segunda imagem, de mulher com criança no colo atravessando fronteira a pé. Essa sequência não é coincidência de cobertura jornalística, ela mostra exatamente quem a guerra deixa lutar e quem ela empurra pra fuga, pro cuidado, pra espera. Cynthia Enloe escreve sobre isso desde os anos oitenta, fala de militarização como o processo que organiza a sociedade inteira em torno da ideia de homem protetor e mulher protegida. E ela lembra de uma coisa que eu acho devastadora: mulheres estão sempre nas guerras, cozinhando pra tropa, sendo esposas forçadas de combatente, trabalhando em economias de ocupação inteiras que só existem por causa do conflito, mas a palavra “combatente” só serve pra quem carrega arma. Então a mulher carregando os três filhos na fronteira também está na guerra. Só que ninguém vai filmar ela como protagonista de nada.

E isso tem peso real, não é só retórica. A maior parte dos deslocados e refugiados no mundo são mulheres e crianças. Elas chegam em campo de refugiado e a vulnerabilidade não acaba, só muda de forma: agora é fome, é falta de atendimento ginecológico, é não ter nenhuma rede de proteção num lugar que não é delas. A guerra não para quando elas cruzam a fronteira. Ela só troca de roupa.

Tem ainda a mulher que enterra filho, marido, pai, e precisa guardar esse luto dentro de casa porque o espaço público do luto de guerra é reservado pro herói tombado, não pra quem chora por ele. Alexievich pegou isso muito bem quando entrevistou aquelas veteranas décadas depois: várias nunca tinham contado pra ninguém o que viveram, porque a narrativa oficial não tinha espaço pra mulher que mata, mulher que carrega cadáver, mulher que volta da frente e não recebe medalha porque o trabalho dela era invisível mesmo estando ali o tempo inteiro.

Isso se repete agora em outra escala, com outros nomes. Mulher ucraniana que ficou pra defender a própria cidade. Mulher curda que pegou em arma. Mulher palestina enterrando filho debaixo de escombro sem nunca aparecer como sujeito político de nada daquilo, só como número na contagem de civis. A imprensa fotografa elas chorando. Quase nunca pergunta o que elas pensam sobre a guerra, o que viveram, o que querem do que vier depois.

Talvez o gesto mais político que dá pra fazer não seja só denunciar a violência. Seja também registrar a vida que insiste em continuar dentro da guerra, mesmo quando tudo em volta diz que não deveria. Alexievich não escreveu sobre heroísmo. Escreveu sobre o cheiro de pólvora que uma mulher ainda sente décadas depois, sobre o silêncio de quem nunca foi perguntada como era o rosto dela durante aquilo tudo.

A guerra não tem rosto de mulher porque ninguém perguntou qual era esse rosto. E enquanto ninguém perguntar, vamos continuar lendo sobre conflito como se fosse só disputa entre exércitos, quando é, antes de qualquer coisa, sobre tudo que se destrói na vida de quem nunca pegou em arma e ainda assim perdeu tudo que tinha.

Referências

ALEXIEVICH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

AZEVEDO, F. A Violência Sexual Contra a Mulher e o Direito Internacional. Centro de Estudos em Direito e Negócios, 2014.

ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. Berkeley: University of California Press, 1990.

ENLOE, Cynthia. Maneuvers: The International Politics of Militarizing Women’s Lives. Berkeley: University of California Press, 2000.

OLIVEIRA, Bárbara de Abreu; LIMA JÚNIOR, Jayme Benvenuto. O estupro como estratégia de guerra em conflitos armados: a experiência do Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia nos casos de violência de gênero. Brazilian Journal of International Relations, 2019.

PEREIRA; CAVALCANTI. O estupro como estratégia de guerra em conflitos armados, 2015.

TICKNER, J. Ann. Gendering World Politics: Issues and Approaches in the Post-Cold War Era. Nova York: Columbia University Press, 2001.

Tamy Simões

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