Também sou brasileiro

Sim, fiz o “L”. E com muito orgulho, afirmo. Pois na minha vida também sofri bullying e outros tipos de preconceitos, até mesmo dentro de minha família (por ser considerado “bastardo”, caboclo etc.) – coisas que muitas crianças, aliás, sofrem todos os dias em nosso mundo raramente justo.

De modo que não posso nem devo compactuar com as ideias da extrema-direita, que costuma tratar as minorias como seres inferiores.

Foi, portanto, com esse pensamento que me dirigi, nos dias quatro e 25 de outubro, ao Tóquio Big Sight, onde os brasileiros residentes na região de Kantō – que abrange, entre outras, as prefeituras de Tóquio, Saitama e Gunma – deveriam votar para escolher o Presidente da República.

E, chegando lá, digitei o TREZE. Porque, mais que escolher o nome de um político (com falhas, sim, porque isso faz parte de nossa humanidade), eu votava ali em alguém que já conhecera a pobreza e a realidade de ser excluído – e que por isso mesmo demonstra uma compaixão e um senso de justiça bem maiores do que, por exemplo, os do seu adversário, este oriundo de uma família que apregoa o ódio e o desprezo pelos menos favorecidos.

E digitaria o TREZE novamente, quantas vezes fosse necessário, para evitar que o fascismo tomasse conta de nosso país, já tão castigado por décadas de uma terrível ditadura militar.

E digitei e confirmei o número TREZE com tamanho orgulho que, logo depois, próximo ao local de votação, pedi a um outro brasileiro que me tirasse uma foto registrando o momento. Foto esta que postei nas redes sociais.

Uma imagem, aliás, que recebeu o apoio de tanta gente do lado do bem, muitos desconhecidos até.

Porém, como toda voz deve ser ouvida em uma democracia, também houve ataques – poucos até, é verdade –; sendo que a maior parte deles limitava-se ao mesmo argumento: a de que “brasileiro que reside no exterior” não deveria opinar sobre o país.

Como se deixássemos de ser brasileiros somente pelo fato de residirmos fora do Brasil.

Ora, pois…

Sei – e faço aqui um mea-culpa – que já escrevi algumas crônicas nas quais eu demonstrava uma certa mágoa em relação ao meu país – recentemente até, quando disse que estava gradualmente perdendo os laços com a minha pátria. Mas toda crônica é momento, e, se escrevi de uma determinada forma antes, foi porque eu expressava ali uma de minhas maiores desilusões como brasileiro: a de ver tantas vezes os meus compatriotas escolherem o “lado errado da História”, principalmente em época de eleições, perpetuando assim injustiças e bancando a “Eterna Colônia”.

Sim, talvez a mágoa de muitos brasileiros residindo no exterior seja mesmo esta: a de ver nosso país tantas vezes cabisbaixo, dizendo sim para o “clubinho dos desenvolvidos”. E, principalmente, seguindo a cartilha que os Estados Unidos adoram ditar pelo mundo afora.

Só que, dessa vez, não! O que vi, e isso também no Japão (ainda que uma minoria), foi um grupo de brasileiros que gritava em alto e bom som: não vamos deixar que ninguém interfira em nossa soberania!

De modo que, como parte desse Japão verdadeiramente Brasileiro, deu-me um orgulho danado de haver surfado nessa onda de resistência guiada por uma estrela. Onda esta que, por onde passava, ia fazendo um “L”…

O “L” da LIBERDADE!

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Autor de dez livros e premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinema. Em 2026, lançou o livro “Robôs e outras Crônicas Nipônicas” no Festival do Japão em São Paulo. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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