Da paz de que eram repletos os dias em Brasóvia, pouco restara. O ar andava pesado havia algum tempo. A felicidade, marca registrada de seu povo, andava sendo aos poucos substituída por uma espécie de medo velado, e o medo, como todos sabem, é o pior inimigo da alegria.
Ameaças pairavam no ar… Pairava no ar também um odor muito forte de dejetos de bovinos. Os bovinos, havia algum tempo já, andavam descontroladamente pelas ruas, mugindo e defecando impropérios, quando não, os ruminavam. Não sei precisar ao certo quando essa espécie assumiu ares de superioridade e, mediante ameaças nada razoáveis, passou a ocupar os espaços públicos, outrora destinados a todos. Meu espanto não se dá pelo fato de sentirem-se superiores, mas pela audácia de ofenderem, inclusive violentamente aqueles que não os reconheciam assim.
Esse narrador que vos fala, inteirando-vos do horror vivido em Brasóvia, não apenas foi testemunha ocular de muitas dessas violências, como foi vítima de algumas delas também. E esse relato faz-se necessário e justificável não apenas a título de curiosidade, mas de registro histórico. Um pouco poético, eu sei, dado o uso das figuras de linguagem e eufemismos todos, mas ainda sim, uma espécie de crônica histórica… Afinal, o que aconteceu em Brasóvia não pode se repetir jamais.
Mutação genética? Alimentação muitíssimo carregada de agrotóxicos e outras drogas? O fato é que as reses, antes amistosas e gentis, transformaram-se, como que o que se faz através de uma lavagem cerebral, em seres ignóbeis e absurdamente violentos. Não foram poucas as vezes em que presenciei suas investidas contra o povo de Brasóvia. Como um surto coletivo, foram assumindo maioria do Congresso, onde reverberavam seu ódio contra aqueles a quem intitulavam “diferentes”.
Um dia, inclusive, pasme o leitor, os flagrei reverenciando a bandeira de, conhecido por ser um algoz de seu povo, aberta e declaradamente buscando interferir e ameaçar a soberania de outros países por escusos interesses. As terras de Brasóvia eram raras, mas mais raro que elas, só mesmo seu povo.
O povo vermelho vivia isolado, compartilhando ideias de igualdade e defesa dessa mesma soberania constantemente ameaçada. Eram originalmente oriundos dos povos originários da terra, mas a estes, com o passar do tempo, forma se juntando as mulheres, os negros, os pobres, aos homossexuais e todos aqueles a quem o clã bovino abominava. Como é possível odiar seu próprio povo? Essa é só uma reflexão retórica desse que vos fala.
Aos poucos, até mesmo as cores da bandeira de Brasóvia foram sendo usurpadas como sendo exclusivamente pertencentes ao clã ruminante. Nas partidas de futebol, nas quais todos outrora exibiam orgulhosos suas camisas, agora, predominava a versão menos popular, o segundo uniforme. Ninguém queria ser confundido com as reses tresloucadas. Em contrapartida, o vermelho, esse mesmo, oriundo da árvore símbolo do país era odiado pelos bovinos. Odiado e cada vez mais, criminalizado, como se o simples fato de usar uma roupa dessa cor o tornasse alguém desprezível.
Por esse motivo, qual foi minha surpresa, caro leitor, quando vi, pela TV, aquelas ruas todas tomadas pelo temido vermelho. O povo, cansado de sofrer a iminente ameaça da volta de um governo bovino, cruel e criminoso, resolveu sair às ruas. À pluralidade de suas feições, fruto da miscigenação de seu povo, acrescentou-se o vermelho, vivo, forte, reavivado!
O vermelho tomou as ruas, mas nele estavam conglomeradas todas as esperanças de um povo, muito mais do que apenas em uma cor, ou o que quero que ela significasse. O povo uniu-se para ousar esperançar. E esperançou. Da força de que eram feitas as gentes foi que renasceu essa vontade genuína. As reses foram derrotadas, e a partir desse momento, uma onda poderosa de resistência começou a se espalhar por todo o globo.
A festa que se seguiu relembrou o povo de sua peculiar alegria. As ruas antes tomadas por toda espécie de violência e irracionalidade bovinas, agora, eram o puro retrato da poesia. O ar, antes carregado de mugidos e cheiro de merda, agora, ressoavam a sinfonia poética da liberdade. Afinal, estamos falando de um povo artista por natureza, poeta, cantor, dançarino da externa corda-bamba. Um povo assim jamais poderia se permitir ser subjugado por aquelas reses.
O líder delas, fugiu. Ainda assim, pasmem, restaram mugidos de lamentação, não ouvidos por ele, obviamente, dada a distância. Houve ainda ameaças, violência, degradação. Rogo para que a elas se sobreponham a sensatez e a paz. Brasóvia ainda tem muito a nos ensinar, e muito o que aprender.
Ouve? Enquanto escrevo esse relato ou crônica, como o senhor preferir chamar, o povo de Brasóvia celebra a vida, mas há gente sendo morta, pisoteada pelos cascos odiosos daqueles que se permitiram dominar pelo ódio gratuito. Até quando?
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