SOMOS DOIS SÓS
Depois de economizar duramente durante inúmeros meses, sacrificando meias, cuecas, aparelhos de barbear, cinema, futebol, domingos e barbeiro, cheguei em casa de táxi (há quanto tempo!) trazendo comigo um aparelho de televisão em cores e um videogame.
A farra foi total! Nada pagava o sorriso do filhão, a mulher sonhando com as novelas, o cunhado pensando no futebol… Fui chamado de melhor pai do mundo. As amigas parabenizavam minha esposa pelo “maridão”, e o cunhado, generoso, pagava a cerveja.
E assim passou o dia.
Chegou a noite, trazendo o sono infantil, o adormecer embalado pelo capítulo de amanhã e pela corrida de Fórmula 1 de domingo.
A paz voltou a reinar. Todos os botões desligados. Quietude.
É justamente nessa hora que a insônia se faz presente, acompanhada de seu inseparável cigarro, da escuridão e de uma emissora de rádio que transmite músicas suaves de tempos idos…
“É noite, tudo se sabe…”
Pensamentos vagos vão tomando forma de interrogações: por quê? Como? Quando?
E, como não poderia faltar, aquela pergunta dos tempos da adolescência, já tão distante:
Quem sou eu?
A resposta vem, a princípio, generalizada: o ser humano pensa que é forte, grande, inteligente, capaz das mais grandiosas realizações, mas não consegue descobrir a si próprio.
Depois, o narcisismo toma conta.
Eu sou um ser que sofre, sorri, procura aprender e, sentindo-se sábio (!), procura ensinar.
O quê?
Sou pai! Qual é a perspectiva desse pequenino ser? Penso em traçar a linha que ele deverá percorrer. Em seguida, afasto esse pensamento. Tentaram traçar a minha linha, e eu não gostei…
Rebeldia.
Sou marido! Alguém que tentamos entender e por quem desejamos ser entendidos.
Para quê?
Hoje eu estava feliz. Agora, mergulho numa profunda melancolia…
Depressão.
Meias, cuecas, aparelhos de barbear… Tudo isso deu no que deu: televisão, videogame, cartuchos.
Apenas isso traz felicidade?
Criança, eu entendo. Mas quem nos faz sentir importantes? Será que, para o adulto, a alegria também está naquilo que podemos comprar?
Isso não faz de mim um grande homem.
Então, sou apenas um ser só!
Apreciado pelo que pode oferecer, amado naquilo que despreza.
Sou apenas um ser só.
Talvez, quando avô, seja diferente e eu tenha um amigo…
Talvez já não esteja aqui.
Talvez…
Sou só e gosto de sentir-me assim!
MENTIRA!
Preciso de alguém que sorria comigo, que chore, que se emocione, que brigue comigo, que me faça sentir importante e que me mostre meus erros. Alguém que precise de mim e que se torne imprescindível para mim.
Não! Não acredito que esse ser exista.
Continuo só!
Vou aprender a ser só. Sei que vou sofrer, mas vou sorrir. Não haverá ninguém. Então, fingirei como todos: serei também um “sociedade”.
Não quero ficar só!
Mas sou apenas um homem só!
Então, o sono chega aos poucos. Apago o cigarro e a mente.
Que fazer?
Continuarei sendo só.
Meu rosto se ilumina num meio sorriso:
Não estou tão só…
Eu me lembro de você.
SOMOS DOIS SÓS!
Professor Pedro Troche Gonzalez


