Viralizou nos últimos dias o anúncio feito pelo piloto e influenciador Lito Sousa – idealizador do canal “Aviões e Músicas” – sobre o seu recém diagnóstico da doença Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurodegenerativa rara e progressiva, que afeta o cérebro de forma muito rápida, comprometendo funções motoras e cognitivas.
Tão logo tudo veio a público, iniciou-se uma corrida contra o tempo com postagens e textos em vários canais de comunicação e redes sociais, protagonizado em grande medida por sua esposa, para tentar inclui-lo nos grupos de estudos experimentais existentes em universidades fora do país; os apelos se estenderam também ao Ministério da Saúde e Itamaraty para auxiliar no contato com pesquisadores no exterior.
É desesperador pensar na condição da família diante de um diagnóstico tão cruel, face a uma doença que não tem cura nem medicamento ou tratamento existente e que se desenvolve rapidamente, uma espécie de “sentença de morte” anunciada. Não à toa, as várias declarações que foram publicizadas eram muito fortes e emocionantes!
Mesmo havendo pesquisas em andamento no país, como na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para entender melhor essa doença e buscar saídas, os estudos clínicos experimentais e testes de novos medicamentos estão concentrados em centros de pesquisa localizados, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, que contam com protocolos terapêuticos experimentais mais amplos.
E é esse o ponto!
É isso que as universidades fazem!
Elas pesquisam, produzem conhecimento, buscam soluções para problemas complexos e demandas da sociedade que parecem insolúveis…
E para que isso aconteça e avance, precisa de recursos!
A lógica parece simples, mas passa por disputas em nosso país, sejam ideológicas, sejam por recursos financeiros.
No campo orçamentário, há ainda muita oscilação e contradições quanto ao investimento na área. Apesar de o orçamento público em ciência e tecnologia ter aumentado em 2026, algo em torno de 10,76% em relação ao ano anterior, o cenário ainda é muito preocupante e revela o tipo de país que almejamos desenvolver, segundo a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), já que a área convive, a par e passo, com restrições fiscais e reduções em repasses para as agências de fomento à pesquisa.
Esses desafios se materializam na ausência de infraestrutura e de bolsas para as/os pesquisadores e equipamentos defasados para o exercício das pesquisas, o que se soma ao excesso de burocracias e prestação de contas, além da chamada “fuga de cérebros”, quando pesquisadores brasileiros desanimados com as condições de pesquisa existentes deixam o país.
Como se tudo isso não bastante, as universidades, pesquisadores e centros de pesquisa sofrem ainda com a depreciação, ataques e difamações. Um arsenal ideológico que propaga inverdades, capaz de gerar prejuízos concretos, quiçá imensuráveis, do desserviço que prestam ao conjunto da sociedade. A título de exemplo, o avanço do movimento antivacina já acumula estragos consideráveis ao vermos acender doenças como o sarampo, que conta com vacina na rede pública, desde a década de 1960.
É trágico ainda ver que muitos algozes que destroem as universidades e enviam sua cota orçamentária – a tal Emenda Parlamentar – para ações, no mínimo, questionáveis, querem gozar do prestígio que só as instituições dão, ao anunciarem formações que nunca tiveram!
Apesar da sensação de um país que está andando para trás, a luta segue, seja na defesa ideológica e orçamentária da ciência, pesquisa e do desenvolvimento do país, seja no árduo trabalho de produzir pesquisa por aqui, enfrentando nossas mazelas e necessidades.
A cura para a doença de Lito ainda requer ser descoberta. Por ora, nos solidarizamos com ele e sua luta para que ela chegue a tempo…

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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