A educação se faz no chão da escola. É lá, e não nos gabinetes e salas de Secretarias de Educação espalhadas por esse país de dimensões continentais, que a genuína educação é feita. Quem não pisa o chão da escola não conhece nem mesmo um décimo do que seja a educação no Brasil. Quem nunca sentiu o chão da escola sob os pés, jamais poderá mensurar o privilégio e a angústia que é frequentá-lo diariamente, e isso mesmo dispondo de modernos métodos de avaliação.
Quem avalia de fato a educação é o professor, porque é em sua figura que ela se baliza. Professores, esses seres tão antagônicos, vistos pela sociedade como heróis salvadores da pátria e desertores, e tudo isso ao mesmo tempo…
Às vezes, tenho a solitária sensação de que de fato não nos conhecem. Há quem pense que ser professor foi nossa única opção, e dentre esses, há quem a julgue uma escolha duvidosa. Há quem a veja como um sacerdócio, ledo engano também!
Professores são seres humanos, tão humanos que encontraram sentido para a vida justamente lidando e aprendendo com outros seres humanos. A sala de aula, a despeito do que pensam muitos, é solo fértil de humanidade, local de encontro de almas, universos inteiros contidos em cada ser que ali adentra. Não, não somos meros números, nós professores nem tampouco nossos alunos. Não podemos ser tratados feito estatística. Por trás de cada novo dado gerado pelo sistema, existe uma vida humana, com todas as suas mazelas e pequenas alegrias, com toda a desigualdade de que ainda sofre esse país que amo.
Não tenho nenhum apreço ou respeito pelos números, nunca tive, e uma vez educadora, essa minha aversão só aumentou. Até entendo a necessidade de mensurar dados, mas discordo abertamente da maneira como isso é realizado. Repito: a sala de aula é feita de seres humanos!
E por nutrir absurdo respeito pelo ser humano é que a escolhi para ser palco de minha vocação, e por que a escolhi é que não posso compactuar com aqueles que visam destruí-la. Quero ver crianças leitoras, livres, lendo o mundo antes mesmo da palavra; não, não quero ver crianças empunhando armas. Quero ver professores valorizados, e não sendo substituídos por autoridades truculentas, que a educação não se faz com violência, ela é justamente o oposto disso. Quero ver meu país celebrar cada pequena conquista para o trabalhador, afinal, sou eu também uma trabalhadora, nunca nutri a ilusão de pertencer a outra classe. A classe dos professores é a classe dos trabalhadores, e talvez uma das mais afetadas pelas ameaças de gente que não gosta de estudar nem que o povo se instrua, afinal, um povo instruído não pode ser facilmente controlado.
Por essas e outras é que enxergo no chão da escola infinitas possibilidades de libertação, minha e de meu semelhante. Por essas e outras, é que celebrei sim, meu dia, comemorado há dois dias atrás, mas não de maneira alienada, antes, relembrando meu propósito e minha força!
O chão onde escolhi pisar, e já piso nele há mais de vinte anos, não pode ser maculado por gente inescrupulosa que nunca sequer buscou entender, nem muito menos respeitar outro ser humano. Por isso, escolho seguir sendo a professora idealista de sempre, dotada de um idealismo realista, que transforma, a duras penas, sonhos em ações, que procura aprender mais do que ensinar, honrando assim o solo sagrado da sala de aula.
Não, eu não me rendo. Eu continuo acreditando que é a educação a arma mais revolucionária de que um povo dispõe para transformar sua realidade. Do solo fértil da sala de aula, tenho visto nascerem cidadãos pensantes, sujeitos-históricos plenamente capazes de alterar a realidade que lhes foi injustamente imposta. Essa é minha maior alegria, esse é meu maior motivo de comemoração, e o celebro todos os dias, e não apenas no dia 15 de outubro.
***
Siga o JORNAL EM DIA BRAGANÇA no Instagram: https://instagram.com/jornalemdia_braganca e no Facebook: Jornal Em Dia
Receba as notícias no seu WhatsApp pelo link: https://chat.whatsapp.com/Bo0bb5NSBxg5XOpC5ypb9D


