Quem se habilita?
Muitos devem estar perplexos, horrorizados, incrédulos com esse título esdrúxulo, violento, abominável em plena semana em que se comemora o Dia do Professor. Então as escolas são consideradas um inferno pela digníssima professora que aqui vos escreve? “Nossas crianças e jovens estariam, então, vivendo em um inferno?”, “Como assim? Essa professora precisa ser interditada, não está bem, não sabe o que fala, perdeu a noção”, diriam os mais indignados com tamanha virulência do mais insano e sombrio enunciado.
Explico, caríssimos e caríssimas, pais, mães, estudantes, diretores, diretoras, professores e professoras indignados. A escola não é um inferno. Não. Fiquem tranquilos. Para a salvação da humanidade, as escolas continuam sendo um lugar maravilhoso para que todos possam aprender a ser, a conhecer, a fazer e a conviver, como enfatizado pela Unesco. As escolas continuam sendo um templo sagrado do conhecimento, um lugar de acolhimento, de escuta, de alegria, de amizade, de respeito, de resistência e de muita aprendizagem, apesar de todos os desafios, desmandos, desmontes e descasos.
Ocorre que ser professor e professora dentro desse espaço, mais especificamente denominado rede pública estadual, é que vem se tornando, dia após dia, um verdadeiro martírio, porque atualmente podemos e devemos ser qualquer coisa dentro das escolas, só não podemos ser professor e professora. Sim, aquele que professa o conhecimento e leva os seus estudantes a beber nas fontes límpidas e cristalinas do saber, aquele que avalia o que é preciso para que crianças e adolescentes avancem em águas mais profundas, aquele que conhece seus estudantes, sabe exatamente ou quando não sabe, procura incansavelmente descobrir qual o melhor caminho para envolvê-los, tornando-os cativos da sabedoria, apreciadores da literatura, devoradores de estórias (assim mesmo, como quer, Guimarães Rosa), pesquisadores afoitos de História, exímios argumentadores embasados na ciência, calculadores de suas próprias rotas e delimitadores de suas próprias metas. Sim, é para isso que deveriam servir os professores, para tornarem seus orientandos cidadãos conscientes, habilidosos e competentes nas diversas áreas do conhecimento, apaixonados pelas artes, pela leitura, pela escrita, pela matemática, pesquisadores, defensores da liberdade, apreciadores e descobridores da vida.
Mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto, a atual gestão pública, encabeçada pelo governador Tarcísio de Freitas e pelo seu secretário da Educação, Renato Feder, quer transformar o professor, a professora em um mero executor, executora de tarefas. Aos docentes e às docentes não é mais permitido pensar, questionar, discutir soluções, decidir, planejar, cativar. O professor, a professora só precisam e devem executar. Executar em nível algorítmico, executar como se não fossem gente, executar como se não houvesse amanhã.
O sucesso dessa execução é medido por metas. Metas são a palavra da vez. Metas nas mil e uma plataformas, metas nas apresentações de slides (sim, as aulas já vêm todas prontas em slides superficiais e maçantes) metas nas avaliações externas (as internas são dispensáveis, não têm valor algum), metas nos índices educacionais bimestrais, metas no número de aprovações, metas no preenchimento de planilhas, metas na quantidade de tarefas executadas pelos estudantes, metas no tempo recorde em que lhes são apresentadas e cobradas essas execuções, metas na Super BI (a superplataforma que monitora tudo).Todas a toque de caixa, muitas vezes, sem nenhum planejamento, sem nenhuma organização, sem equipamentos, sem internet de qualidade, sem a mínima condição para execução. Mas o terror não para por aí. Temos ainda as metas, pasmem, no índice de frequência dos estudantes (como se essa fosse uma variável totalmente controlada pela boa vontade e o mais puro desejo dos professores e professoras).
E ai daqueles que não conseguirem atingir as metas. Ai dos pobres infelizes no inferno dantesco, ou melhor, federesco. Ai dos seres que não conseguirem se adaptar às novas exigências da Sala do Futuro, à nova versão de tarefeiro, vulgo obsoleto professor. E para os gestores que não alcançarem metas “rua”, brada Renato Feder “não bateu a meta, tchau”. Diante de tamanha prepotência e desrespeito, aos docentes que venham as exposições constrangedoras, as ameaças explícitas de possibilidade de demissão, mensagens incontáveis de cobrança, termos de orientação de conduta (as famosas advertências) e os temíveis e depreciativos faróis. Ah, os faróis! Determinantes se o professor ou a professora continua ou não em determinada escola. Verde para os que atingem todas as metas, amarelos para os que ficam no meio do caminho e vermelho para os que estão no fim da linha.
No inferno de Feder, não é mais o professor, a professora que avalia seus alunos e alunas, são estes que avaliam seus professores e professoras. Não que isso não seja importante, pois é, sim, muito bem-vindo, que docentes tenham conhecimento, retorno de como seu trabalho vem sendo avaliado pelos e pelas discentes, mas não da forma como isso está posto. Não da maneira perniciosa como essas avaliações estão sendo utilizadas, ou seja, para pura e simplesmente punir todos aqueles que não se adaptam ao mais novo e badalado formato de “educação” do estado.
Como professora, apaixonada e feliz na profissão como sempre fui ao longo de quase 25 anos de magistério, não me conformo em estar vivendo neste inferno. Não me conformo em estar diante do aniquilamento feroz e paulatino de uma das profissões mais essenciais e sublimes a que alguém pode querer se dedicar. Na verdade, como diz uma amiga muito querida, ser professor, professora não é uma profissão. É uma missão. Não me conformo de ver diante de meus olhos a minha profissão ser exterminada. Culpabilizada pelos fracassos de toda sorte, atacada em sua essência e impedida de pensar, impedida de respirar, impedida de ser.
Não, infelizmente, não tenho o que comemorar no dia 15 de outubro. Ao meu lado vejo professores e professoras extenuados, indignados, desalentados, calados, tirando forças de onde não há, resistindo, adoecendo, exonerando, contando os dias para o ano terminar. E mesmo diante de tamanho martírio, se esforçando, se dedicando ao máximo para que esse desalento não chegue aos personagens mais importantes dessa história: nossos estudantes que têm uma vida toda pela frente e merecem o melhor de nós. Por eles e para eles temos que resistir. Dinheiro pode-se ganhar de outras maneiras, até vendendo cachorro-quente na praia, como às vezes costumamos escutar. Mas conhecimento, esperança num mundo melhor e habilidade para alcançar objetivos só um bom e verdadeiro professor é que pode propiciar.
Portanto, sigamos! Habilitemo-nos! O inferno há de passar! Enquanto isso não acontece, fortaleçamo-nos com Mário Quintana “esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão… Eu passarinho!”.
Andreia Aparecida Catadori Rodrigues Castilho, uma professora indignada.
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