I
Peço licença ao destino
Para em rima declamar,
A história de uma flor
Que o tempo não vai apagar,
Um anjo de cinco anos
Que nos ensinou a amar.
II
Ana Clara era o nome
Dessa doce criança,
Sorriso de sol radiante,
Cheia de luz e esperança,
No peito de sua mãe
Era a maior confiança.
III
Rainha de sua casa,
Querida no seu lugar,
Por todos os seus amigos
Amada em todo olhar,
Alegria do pedaço,
Passarinho a cantar.
IV
Na cidade Niterói,
Onde a vida florescia,
A menina no terraço
Brincava com alegria,
Guardando no seu peito
Toda a pureza do dia.
V
Junto ao irmão pequenino,
De apenas dois aninhos,
Brincavam ali na porta,
Seguros no seu cantinho,
Pois a infância no mundo
Só precisa de carinho.
VI
Mas no meio do caminho
Surgiu a escuridão,
Passava o patrulhamento
Que trouxe a desolação,
Com fuzil apontado
A descarregar no chão.
VII
Um estampido de aço
Cortou o ar da viela,
Um tiro cego e covarde
Atingiu a flor mais bela,
Desfechando uma tragédia
Nas páginas da favela.
VIII
O povo no mesmo instante
Gritou em desespero:
—“Parem com esses tiros,
Tem gente no terreiro!
Respeitem a vida do povo,
Respeitem o morador!”
IX
Mas o aviso dos pobres
Não fez o braço parar,
A força da violência
Continuou a atirar,
Sem importar com a dor
De quem via tudo ruir.
X
Derrubaram no asfalto
Um anjo de inocência,
Interrompendo os sonhos
Com frieza e violência,
Deixando uma família
Em pranto e dor sem ciência.
XI
E para cobrir a culpa
Do erro que cometeu,
Senador autoridade
Que o assassino defendeu,
Com discurso inflamado
Pelo poder que venceu.
XII
Ignoraram o pranto,
A dor do pai e da mãe,
Pois na justiça dos homens
O fraco nunca obtém
O amparo da lei
Que protege quem convém.
XIII
A justiça para os ricos
Costuma ser diferente,
Esconde a dor dos humildes,
Cala o grito do inocente,
Mas a força da verdade
Fica viva na gente.
XIV
Hoje a casa está triste,
Sem o riso da menina,
O seu irmãozinho chora
Procurando na esquina
A irmã que tanto amava,
Sua estrela divina.
XV
Mas a força do povo
Não vai se calar jamais,
O nome de Ana Clara
Viverá entre os demais,
Pois a memória de um anjo
Pede justiça e paz.
XVI
Que no céu dos inocentes
Ana Clara encontre luz,
Livre de toda maldade,
Nos braços sua cruz,
Pois aqui na terra a saudade
É o que hoje nos conduz.


