No sertão ou na cidade,
Onde a vida faz seu curso,
Vou contar uma história
Com um triste sobressalto,
De uma linda garotinha
Que tombou sob um asfalto.
Na metrópole crescia
A menina de luz pura,
Gostava da sua escola,
Aprendia com doçura,
Tinha sonhos no olhar,
Alegria e travessura.
Brincava no verde parque
Com amigas a sorrir,
Pega-pega e amarelinha,
Sem cansar de se divertir,
Pura como a passarada
Ao amanhecer surgir.
Ao voltar pra sua casa,
Outra rotina amada,
Isto era o seu mister
Ao fim de cada jornada:
Cuidar de sua vovó,
Pela neta tão honrada.
Com carinho e paciência,
Dava água e medicação,
Cuidava da velhinha
Com amor no coração,
Trazendo para aquele lar
Sua bênção e proteção.
Mas o mundo traz espinhos,
Onde habita a crueldade,
E no meio do caminho
Pela grande cidade,
A sombra do perigo
Escondeu a caridade.
Ia ela para a escola
Caminhando descansada,
Quando veio um carro preto
Numa manobra apressada,
E pra dentro do veículo
A menina foi jogada.
Lá dentro o mal sem nome
Sua vida devorou,
Violentada e sem defesa,
Sua luz se apavorou,
E a mão da perversidade
Seu destino interrompeu.
Para ocultar o crime,
Sem ressentimento ou dor,
Atiraram a garota
Num rio de águas sem cor,
Achando que a correnteza
Apagava aquele horror.
Mas o choro de uma mãe
E a dor de um bom pai
Têm a força de um corisco
Que da nuvem negra cai:
Eles juraram justiça
Que do peito nunca sai.
Não sossegaram um segundo,
Procurando pista e rastro,
Investigaram a fundo
Sob a luz do mesmo astro,
Pois a dor daquela perda
Era um pesado mastro.
Encontraram os bandidos
Sem polícia e sem juiz,
E com as próprias mãos fizeram
A justiça mais raiz:
Fizeram pior com eles
Pelo mal que o mostro fez.


