Sim, refiro-me a uma singela viagem em família a Águas de Lindóia. Cidade turística, onde circulam inúmeros trenzinhos, carregados de turistas, animados ou não, percorrendo as ruas também cheias de gente.
Logo que chegamos à cidade, tratei de conhecer a casa onde nos hospedaríamos, e isso compreendia olhar todos os quartos, salas, banheiros, piscina… Dediquei especial atenção aos quartos, afinal, ocuparia sozinha um deles. Para minha surpresa, restou-me um quarto com, pasmem, quatro camas, que descobri depois multiplicavam-se por dois, somando oito.
Respeitei a hierarquia dos casais, a necessidade de um quarto com varanda para o “lazer” da cachorrinha do meu irmão, e confesso que gostei muito de minha “escolha”. Mas isso não me impediu de fazer o tal “tour”, que compreendia também uma olhadela demorada na varanda. A casa, localizada quase em frente à praça principal permitia uma vista privilegiada da cidade, por isso, demorei-me um pouco nesse exercício de observar. Fazia uma tarde linda de inverno, que os turistas, já há mais tempo estabelecidos na cidade, aproveitavam da maneira mais autêntica: passeando de trenzinho. Aliás, me arrependi de não ter feito novamente esse passeio clássico.
Estranhei o desânimo com que os trenzinhos passavam, normalmente, passam fazendo barulho, algazarra mesmo, as crianças, talvez as mais devotas do passeio, gritando e chacoalhando as mãos, como se estivessem mesmo em uma louca montanha-russa turística. Guias esforçando-se para manter o astral durante o breve percurso. Nada, não via nada dessa “bagunça”. Estariam cansados? Podia mesmo ser que tivessem acabado de chegar e se obrigado logo a fazer o tradicional passeio. Será?
Fiquei por uns bons minutos observando a movimentação ou a ausência dela, de minha varanda, que não era bem minha, até que, fui surpreendida com uma única pessoa me acenando do trem. Uma mulher, uma única alma animada (perdoem-me o pleonasmo), agitando as mãos com um sorriso tão receptivo, que me fez sorrir também, com os olhos, os lábios e as mãos, retribuindo o aceno.
Achei o máximo! Só eu achei, acredito que ninguém a tenha notado, nem mesmo seus companheiros de trem, ou, se notaram não fizeram questão alguma de reproduzir o gesto, deixando-se levar pela animação da colega. Não, não se permitiram contagiar pela alegria dela.
Eu, em contrapartida, sim. Na verdade, só compartilhei dela. Estávamos as duas, mesmo sem fazer a mínima ideia a respeito uma da outra, conectadas por uma espécie de estado de espírito comum. Tínhamos vontade de acenar para estranhos, não sei se só para cumprir o protocolo dos trenzinhos de cidades turísticas do interior, ou só pelo prazer de cumprimentar nossos semelhantes mesmo. Talvez um pouco dos dois. O fato é que aquele gesto, não sei ao certo pelo que motivado, foi o suficiente para ressuscitar minha fé na humanidade. Dizendo assim, parece exagero, mas há dias em que um simples aceno é um lembrete do quanto nossa alma necessita de gentilezas.
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