TRÊS CANÇÕES… TRÊS AMANHÃS… III APESAR DE VOCÊ

TRÊS CANÇÕES… TRÊS AMANHÃS… III

APESAR DE VOCÊ

 

Uma canção, um tempo e um amanhã que insiste em chegar

 

Há músicas que a gente escuta.

Há músicas que a gente canta.

E há aquelas que, depois de atravessarem o tempo, parecem continuar nos escutando.

“Apesar de Você”, de Chico Buarque, pertence a essa última categoria.

 

Quando foi lançada, em 1970, o Brasil vivia sob a ditadura militar. A censura fazia hora extra, a liberdade de expressão tinha sido colocada de castigo e muita gente aprendeu uma curiosa modalidade de sobrevivência: falar sem dizer, dizer sem escrever e escrever aquilo que, aparentemente, não dizia coisa alguma.

 

Chico resolveu brincar com a censura.

E que brincadeira!

“Hoje você é quem manda

Falou, tá falado

Não tem discussão, não.”

 

Era música. Mas também era recado.

Um recado para quem mandava, para quem obedecia e, principalmente, para quem acreditava que o poder seria eterno.

Só que Chico tinha uma pequena informação para os donos do poder: ninguém manda no amanhã.

 

E então veio o refrão, repetido como quem bate à porta da História:

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”

Talvez esteja aí a força extraordinária dessa canção.

Ela não precisava citar nomes.

Não precisava apontar o dedo.

Não precisava desenhar o autoritarismo.

Todo mundo sabia quem era o “você”.

E talvez justamente por isso a música tenha atravessado a censura com tanta força.

 

O mais curioso é que algumas palavras envelhecem. Outras envelhecem mal. E algumas simplesmente se recusam a envelhecer.

“Você que inventou esse estado

E inventou de inventar

Toda a escuridão…”

 

A História muda de roupa, muda de discurso, muda de personagens. Mas certas tentações permanecem: o desejo de mandar demais, de calar demais, de controlar demais.

E é aí que uma música escrita há mais de meio século volta a bater à nossa porta.

Não para nos dizer em quem votar.

Muito menos para nos ensinar quem é o mocinho ou o bandido.

A canção faz algo mais interessante: faz perguntas

Quem manda?

Até quando manda?

Quem obedece?

 

E, sobretudo, o que acontece quando aqueles que hoje parecem donos da História descobrem que a História não lhes pertence?

 

Chico responde com poesia.

O amanhã chega.

Chega apesar do medo.

Apesar da censura.

Apesar dos poderosos.

Apesar daqueles que imaginam que o Brasil começa e termina no próprio quintal.

 

E talvez seja por isso que essa canção continue tão viva.

Porque o amanhã não pede licença.

Ele simplesmente chega.

E quando chega, às vezes encontra na porta aquilo que parecia indestrutível: estátuas, discursos, certezas, arrogâncias e homens convencidos de que permanecerão eternamente no comando.

Coitados.

Esqueceram de combinar com o tempo.

E o tempo, como sabemos, é péssimo em cumprir ordens.

Por isso, depois de tantos anos, continuo ouvindo Chico cantar:

 

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”

 

Não é apenas uma frase de esperança.

É quase uma advertência.

Aos poderosos de ontem, de hoje e de amanhã:

o poder passa.

A História fica.

E o amanhã sempre chega.

Apesar de você.

Apesar de nós.

Apesar de tudo.

 

E talvez essa seja a grande lição dessa terceira canção: ninguém consegue censurar o amanhã.

 

Professor Pedro troche Gonzalez

Pedro Troche González

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