Há algo profundamente preocupante no debate público contemporâneo; a transformação da moral em instrumento de combate, da fé em palanque político e da democracia em uma palavra insossa, invocada por conveniência e frequentemente desrespeitada na prática.
O falso moralismo, a instrumentalização da fé e a defesa seletiva da democracia revelam uma contradição perigosa; quando o adversário deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser alguém que se deseja destruir, o debate político perde sua razão de existir.
Vivemos um tempo em que muitos acreditam que para vencer uma discussão, não basta apresentar argumentos consistentes; é preciso destruir a reputação de quem pensa diferente. Desqualificar, humilhar, atribuir intenções perversas e transformar o adversário em inimigo têm sido a maior bandeira.
Mais importante do que a verdade tem sido a derrota moral do outro, e vencer uma disputa de narrativas parece justificar o abandono da honestidade intelectual.
O “amor” tem subido ao palanque estimulando o ressentimento; a “paz”, naturalizando a hostilidade.
A defesa de valores tem abarrotado as esquinas e as redes sociais, mas tem sido relativizada quando esses mesmos valores se tornam inconvenientes para o próprio grupo.
O grande desafio começa quando a convicção se transforma em licença para a crueldade, quando a fé passa a servir de escudo para a agressividade e quando a indignação moral se torna seletiva.
Na política, Deus foi transformado em cabo eleitoral; sua palavra é invocada para condenar comportamentos alheios.
Cada grupo reivindica para si um Deus moldado à medida de suas conveniências. Ele pode até mesmo ser promíscuo quando a promiscuidade está do lado de quem fala.
Durante o período do Carnaval, por exemplo, vimos com recorrência nas ruas, no sambódromo, onde ocorriam os principais desfiles, e em vídeos na internet, a fé alheia sendo escandalizada, vulgarizada como forma de ataque.
E a imagem de Nossa Senhora também não vem escapando desse contexto de ataques.
Na segunda-feira passada, mais uma vez, em uma disputa eleitoral, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, símbolo de devoção para milhões de brasileiros, foi reduzida a objeto de confronto político. Dessa vez, no entanto, em um vídeo compartilhado no Instagram pela influencer digital, ex-participante da versão brasileira do reality show Big Brother, Juliette. E isso ocorre justamente em 12 de outubro, dia dedicado à sua celebração.
A imagem foi arrastada mais uma vez por uma corrente que não era de águas, mas de algoritmos.
Não, o nome de Deus não deveria ser usado como aval para projetos de poder. Nossa Senhora Aparecida não deveria ser emblema de uma corrente política.
A liberdade religiosa é, sim, um direito; a instrumentalização política da religião é outra coisa.
Para mim, isso é inegociável. A fé merece respeito justamente porque é maior do que qualquer partido ou projeto de poder.
Também é preciso falar sobre democracia. Defendê-la não significa apenas reivindicar o direito de se manifestar ou denunciar aquilo de que se discorda. Significa, sobretudo, reconhecer que o outro também tem direitos e dignidade.
Ao contrário do que vem sendo defendido, democracia não é a vitória permanente da nossa vontade. Por isso, há uma contradição evidente em defendê-la enquanto se estimula a guerra contra quem pensa de outra maneira, como muito vem acontecendo.
A hipocrisia política, entretanto, talvez se revele de maneira ainda mais clara na indignação seletiva; como quem denuncia com veemência uma injustiça quando ela atinge o próprio grupo, mas encontra justificativas ou mantém um silêncio conveniente quando a vítima está do outro lado.
Para mim, esse comportamento não é defesa de princípios. É defesa de interesses disfarçada de princípio.
Infelizmente, a mentira foi transformada em senhora da razão, e a indignação tem dependido da identidade de quem sofre e da identidade de quem pratica. E isso foge da ética, assemelha-se a uma torcida. E a torcida, quando ocupa o lugar da consciência, converte a política em uma disputa na qual os fatos importam menos do que as conveniências.
Acredito que é perfeitamente legítimo defender ideias, apoiar projetos políticos e combater aquilo que se considera errado. O que não é legítimo, do ponto de vista moral, é reivindicar para si o monopólio da virtude.
E é justamente agora, com o segundo turno das eleições se aproximando no Brasil, que uma preocupação deveria nos inquietar para além das urnas; a engrenagem alimentada ao longo desse processo, como a fabricação de inimigos, a desumanização de quem pensa diferente, a exploração dos medos e a disseminação de uma hostilidade que, pouco a pouco, passa a ser tratada como algo totalmente normal.
Uma eleição tem data para terminar. Mas o que acontece com o ódio que foi cultivado até ali? Para onde ele irá quando já não houver campanha ou adversário a ser derrotado nas urnas?
O ódio não desaparece automaticamente com a divulgação do resultado. Quando se transforma em identidade política, ele encontra novas razões para sobreviver, e a sociedade continua refém de uma lógica na qual o outro não é alguém com quem se disputa democraticamente, mas alguém contra quem se deve lutar permanentemente.
Quem mobiliza pessoas pelo medo precisa continuar oferecendo ameaças. Quem constrói sua força política sobre a indignação permanente precisa encontrar novos motivos para se indignar. E quem convence seus seguidores de que o adversário representa o mal dificilmente conseguirá pedir que o vejam simplesmente como um cidadão que pensa diferente.
Neste momento, a grande pergunta não é apenas quem vencerá as eleições, mas que país restará depois delas.
O mundo não se transformará em um paraíso, como parecem acreditar aqueles que depositam na vitória de seu partido a solução para todos os problemas do país.
Que relações familiares, comunidades e instituições sobreviverão à transformação das divergências políticas em conflitos morais absolutos? Como reconstruiremos a confiança quando tantos foram ensinados a odiar ou temer o próprio concidadão?
É neste solo de incertezas e medo que queremos que as nossas crianças cresçam?
O fato é que uma liderança verdadeiramente comprometida com o país deveria ter a grandeza de preparar seus apoiadores não apenas para vencer, mas também para perder.
O adversário de hoje continuará sendo parte do mesmo país amanhã, e a prova mais importante talvez venha depois da eleição, quando for necessário aceitar o resultado, reconhecer a legitimidade de quem pensa diferente e recusar a tentação de transformar a frustração em perseguição.
Porque, no fim, o maior perigo não será o lado que vencer, mas a ideia, perigosamente disseminada, de que o país só estará salvo quando o outro lado for definitivamente silenciado ou eliminado da vida pública.
Uma democracia não pode permanecer saudável quando metade de um país é ensinada a odiar a outra metade.
É urgente aprender a defender nossas convicções sem transformar o contraditório em ameaça.
A verdadeira medida da moral não está nos discursos que fazemos diante dos nossos semelhantes, mas na maneira como tratamos aqueles de quem discordamos.
E quem só defende a moral, a liberdade, o amor e a democracia quando essas palavras favorecem os seus, não está defendendo princípios; está apenas vestindo os próprios interesses com as supostas roupas da virtude.
A eleição vai terminar. Mas teremos maturidade para fazer o ódio terminar com ela?
Por Amanda da Silveira Lopes
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