Extra! Extra!
Em tempos de polarização política, até o sofrimento humano precisa respeitar o calendário eleitoral.
É preciso escolher a hora certa para adoecer, para falar sobre as próprias dores, para enfrentar os próprios conflitos. Talvez seja preciso até pedir licença para morrer. Afinal, há uma guerra política acontecendo, e nada pode desviar a atenção dela. Nem mesmo a saúde mental de alguém.
Hoje, 20 de outubro, é o Dia Mundial de Combate ao Bullying. Data esta que deveria servir para conscientizar, acolher, ouvir e lembrar que palavra também fere, que a violência psicológica deixa marcas profundas e que ninguém, absolutamente ninguém, deveria ser humilhado por ser quem é.
Mas eis que, justamente hoje, Felca, um influenciador brasileiro e criador de conteúdos no YouTube, com aproximadamente seis milhões de inscritos, que decidiu falar sobre a própria experiência com o bullying, torna-se alvo de ataques porque não entregou aquilo que parte do público esperava dele; um posicionamento político norteado por um conteúdo/vídeo que pudesse ser capaz de atingir um candidato à Presidência.
Criaram alta expectativa sobre um assunto que supuseram que seria tratado, mesmo sem nenhum indício concreto para tal.
Apostaram suas esperanças políticas em uma possibilidade que nunca foi uma promessa; e, quando a realidade não correspondeu à narrativa ilusoriamente construída, transformaram a frustração em agressividade.
Desde quando alguém deve satisfação política por não corresponder às expectativas que os outros inventaram/criaram a seu respeito?
Desde quando uma pessoa precisa colocar suas dores em segundo plano porque existe uma eleição em andamento?
E, principalmente, desde quando a saúde mental de alguém se torna menos importante porque seu sofrimento não serve à estratégia política de determinado grupo?
O mais contraditório é ver pessoas que afirmam lutar por um mundo mais humano, justo e livre de autoritarismo, exigirem de alguém que relata enfrentar problemas de saúde psicológica, que vá às favas, simplesmente porque ele não correspondeu às expectativas.
Qual é a sociedade que estamos tentando construir quando a empatia depende da utilidade política de quem sofre?
Infelizmente a intolerância não deixa de ser intolerância, porque vem acompanhada de um discurso que se apresenta como justo, e nem mesmo a violência psicológica passa a ser legítima porque foi praticada em nome de uma causa considerada nobre.
Não, não é possível combater o bullying praticando bullying, nem mesmo é possível defender a liberdade tentando controlar o que os outros devem dizer.
Uma luta contra o autoritarismo que exija que todos pensem, falem e ajam de acordo com as nossas convicções é o ápice do falso moralismo.
A democracia pressupõe diferenças, divergências e disputas de ideias. Mas o problema começa quando qualquer posicionamento precisa ser convertido em arma política e, sobretudo, quando deixamos de enxergar seres humanos do outro lado e passamos a enxergar inimigos.
Infelizmente, o que mais temos presenciado, tanto nas ruas quanto nas redes sociais, é o sofrimento, a dignidade e o respeito interrompidos porque alguém considera mais urgente atacar um adversário ideológico.
Tudo precisa servir à disputa, num cenário sem espaço para nuances, para o silêncio, para a dúvida ou para o simples direito de não participar de todas as batalhas.
Muitas pessoas estão tentando apenas sobreviver a mais um dia e, nesse ambiente de polarização, até o direito de não corresponder às expectativas alheias parece ter sido revogado.
O mais assustador, para mim, é perceber que algumas pessoas já não conseguem reconhecer a humanidade de alguém sem antes verificar sua posição política.
Denunciar uma dor que não me interessa transformou-se em espetáculo orbital do próprio umbigo.
Mas será que não existe uma enorme contradição em acusar alguém de orbitar em torno do próprio umbigo enquanto se exige que essa mesma pessoa abandone suas dores para atender às nossas expectativas?
O verdadeiro egocentrismo está justamente em acreditar que a nossa urgência política é tão importante que todos os outros devem suspender a própria vida para servi-la.
O fato é; pessoas estão adoecendo. A luta contra a depressão, a ansiedade, o isolamento e as dores que ninguém vê é real e crescente.
Há pessoas tentando simplesmente atravessar mais um dia e reunindo uma coragem imensa para falar publicamente sobre aquilo que enfrentam em silêncio.
Pedir ajuda nunca foi uma realidade tão fácil na prática quanto tentam defender que é ou que pode vir a ser.
Acredito e defendo que a saúde mental deve ser uma prioridade permanente, não um assunto conveniente apenas quando ajuda a construir uma narrativa. E, muito diferente do que acontece, precisa ocupar espaço real nas discussões sobre o país que queremos construir, independentemente de quem está disputando o poder.
Afinal, de que adianta falar em um país melhor se estamos perdendo a capacidade de tratar uns aos outros com dignidade?
A denúncia ao autoritarismo, enquanto se quer controlar a voz, as escolhas e até o momento em que alguém pode expressar a própria dor, é mais uma gigantesca insensatez.
Uma eleição é importante sim, o futuro de um país importa e muito, mas nenhuma disputa eleitoral deveria levar-nos ao esquecimento de que estamos lidando com pessoas, e não com instrumentos descartáveis de uma estratégia.
Ninguém tem obrigação de se transformar em protagonista da batalha política de outra pessoa. E absolutamente ninguém deveria ser “massacrado” por escolher falar de uma dor pessoal quando esperavam que falasse de política, ou mais especificamente, de um candidato.
Acredito que, se a intenção real é a de construir uma sociedade mais humana, é mais do que a hora de demonstrar humanidade justamente diante de alguém que abre o seu coração para falar com sinceridade sobre a própria saúde mental.
Porque assim como eu escrevi no meu artigo anterior “A moral de conveniência e o ódio que sobreviverá às urnas” (Leia mais aqui: https://portaldoro.com.br/a-moral-de-conveniencia-e-o-odio-que-sobrevivera-as-urnas/ ) que dialoga essencialmente com o de hoje, o respeito que só oferecemos a quem concorda conosco não é respeito, é conveniência.
A empatia que desaparece quando somos contrariados não é empatia, é instrumento de negociação; e a liberdade que só reconhecemos no outro quando este faz exatamente o que queremos não é liberdade, é controle.
E continuo acreditando que neste segundo turno das eleições brasileiras, mais importante do que apenas escolher quem merece governar o país, é buscar compreender quem estamos nos tornando enquanto tentamos decidir isso.
Reforço que, neste Dia Mundial de Combate ao Bullying, haja uma reflexão que alcance muito além das escolas e das campanhas de conscientização.
O bullying também se alimenta da desumanização, da necessidade de humilhar, da incapacidade de aceitar diferenças e da convicção de que temos o direito de ferir quando nos sentimos contrariados.
Acredito que nenhuma eleição é tão decisiva que exija o adiamento da dor de alguém e nenhuma divergência transforma um ser humano em alguém que merece ser destruído.
Ninguém deve pedir licença para adoecer.
Ninguém deve pedir desculpas por estar sofrendo, muito menos ter de esperar o fim das eleições para ter o direito de ser tratado com humanidade.
Se, para construir o país que desejamos, precisamos tentar destruir a dignidade de quem está diante de nós, talvez tenhamos perdido de vista o que realmente significa construir um país melhor.
Por Amanda da Silveira Lopes
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