J-POP

Resido no Japão há mais de duas décadas. Mas confesso que até então não havia prestado a devida atenção a uma de suas maiores expressões culturais: o J-POP (ou Música Popular Japonesa). O idioma, claro, havia sido uma de minhas maiores barreiras para acompanhar (e consequentemente apreciar) esse lado – hoje sei – tão interessante da Terra do Sol Nascente.

Mas tudo mudou de uns tempos para cá, e isso principalmente graças à influência do meu filho, hoje com sete anos de idade. Provavelmente motivado pelos coleguinhas da escola, ele começou a acompanhar os ritmos que têm feito por aqui o maior sucesso nos karaokês da vida. E eu, por conseguinte, escutando as suas canções favoritas, acabei também sendo por elas conquistado.

E, entre canções românticas e outras de hip-hop (sim, os Japoneses curtem e muito este último), fiquei encantado com uma banda chamada SAKANACTION – batizada através de uma aglutinação entre as palavras SAKANA (peixe) e ACTION (ação). Algo como “a ação do peixe” ou “peixe em ação”, vocês escolhem.

A banda, liderada pelo enigmático Ichiro Yamaguchi, mistura música eletrônica e rock alternativo, adotando visualmente um estilo gótico. Uma misturada de estilos, portanto, que agradou de cara este cronista aqui, um confesso fã do som de bandas como o “Nirvana” e o “Green Day”, só para citar duas de minhas favoritas quando o assunto é música underground.

E, justiça seja feita, o embalo criado pelo Sakanaction é mesmo contagiante. Há uma canção deles – lançada ainda em 2012, mas que voltou às paradas de sucesso recentemente –, intitulada YORU NO ODORIKO (O Dançarino da Noite), que é mesmo o maior barato. A canção começa assim: “Haneta/ Haneta/ Boku wa Haneta/ Wo-Wo-Wo/ Shougakusei/ Mitai ni…” Traduzindo: “Saltei/ Saltei/ Eu saltei/ Wo-wo-wo/ Parecendo um estudante da escola primária…” E depois, lá pela metade, a música se torna mais melancólica dizendo: “Doke e ikou?/ “Doko e ikou?/ Koko ni iyou to shiteru?” (Para onde vou? Para onde vou? Será que estou tentando permanecer aqui?) – refletindo assim a desilusão e o sentimento de não pertencimento que aflige a juventude japonesa.

Uma joia de canção, que, a meu ver, posiciona-se muito acima de algumas composições norte-americanas atuais – cujos videoclipes limitam-se a mostrar os atributos físicos dos cantores (talvez para que esqueçamos que a letra em si não diz lá muita coisa).

Já o Sakanaction, com seus integrantes vestidos de quimono, tocando guitarra em um ambiente bucólico, são, por assim dizer, poesia pura. E é disso que a música (e as artes de um modo geral) deve sempre ser feita! É isso que a torna eterna, e não uma moda passageira.

Valeu, pois, filhão, pelas dicas musicais. Gostei tanto que vou até comprar um CD do Sakanaction

― CD, velho, tá maluco? – meu filho me lança um olhar de reprovação: – E pra que serve o Spotify?

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Autor de dez livros e premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinema. Em 2026, lançou o livro “Robôs e Outras Crônicas Nipônicas” no Festival do Japão, em São Paulo. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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