Sempre digo: uma obra prima às vezes pode ser traduzida numa única pincelada, numa única obra de engenharia, num único gol, num único anúncio, numa única fala de advogado, numa única planta do jardineiro, num único abrir de cortinas no teatro, num único frescor de uma laranja colhida no pé.
Assim é na vida e no cinema. Com um filme único, é o mesmo processo.
Porque, para ser grande filme, tudo começa com uma grande história. Um grande roteiro. Uma grande interpretação. Uma grande direção. Uma grande trilha sonora.
E grande, aqui, não significa tamanho. Significa grandeza, significa beleza, significa realeza.
Significa frescor. Significa ineditismo. Tudo no mesmo lugar.
Mas acho, também, que toda obra prima chega num ponto da sua execução em que o seu autor talvez precise decidir como terminá-la.
E se pergunta: o que fazer?
É o mesmo dilema que talvez Da Vinci tenha passado antes de terminar a Mona Lisa. O que fazer?
O mesmo dilema que Oscar Niemeyer talvez tenha passado antes de terminar seu Memorial JK. O que fazer?
O mesmo dilema que Shakespeare talvez tenha passado antes de terminar seu Hamlet. O que fazer?
O mesmo dilema que o publicitário talvez tenha passado antes de terminar seu Leão de Ouro. O que fazer?
O mesmo dilema que o Pelé talvez tenha passado para terminar aquele gol de bicicleta. O que fazer?
O mesmo acontece no cinema.
Mesmo um grande filme chega num ponto, um ponto crucial, em que o diretor precisa parar… conversar consigo mesmo, porque ele percebe que sua obra prima – quase pronta – pode significar um grande fracasso.
Uma cena fora do lugar, uma frase mal escrita, pode colocar tudo a perder. Mesmo que alí estivessem as músicas da maior banda da história da música.
Então, o que fazer?
Primeiro de tudo: fazer silêncio.
Silêncio consigo mesmo.
Conversar consigo mesmo, mas em silêncio.
Porque, um tiquinho de detalhe fora do lugar, pode colocar tudo a perder.
Pois foi exatamente nesse momento do filme que todos os anjos, estrelas e divindades desceram lá de cima e presentearam o roteirista Richard Curtis e o diretor Danny Boyle com o maior dos presentes: a solução.
E a solução veio com uma cena simplesmente antológica! Histórica!
Irretocável.
Linda.
Emocionante.
Arrebatadora.
E o final da obra prima que é Yesterday teve tudo isso:
Verdade, dignidade, grandiosidade!
Você vai rir.
Você vai chorar.
E vai rir de novo.
E vai chorar de novo.
Mas vai!
Se você acredita que as palavras acima têm algum significado para você, vá ver o filme!
Mas se, depois de ver o filme, achar que as palavras acima não tiveram nenhum significado para você, tudo bem…
Let it be!
(VEJA O FILME NA NETFLIX)


