(Feliz dia dos pais!)
Não adianta olhar pra filha do senhor, que ela não vai ajudar. Advertia a médica, em tom gentil e risonho. E eu queria chorar, mas não podia fazê-lo ali, não diante dos dois. O esforço era genuíno, dava pra ver, ele queria, ele precisava se lembrar. Mas porque é que as palavras, as palavras simples como sapato ou casa, simplesmente fugiam arredias de sua mente?
Eu assistia a seu desespero como se fosse meu próprio, como se de repente, por um motivo qualquer, absolutamente alheio a minha ou sua vontade, as palavras todas, todas elas, as palavras que são desde sempre meu alimento e por quem sinto verdadeira paixão, também me abandonassem. Éramos eu e ele apenas telas escuras, cadernos antigos, cujas páginas outrora recheadas de história, haviam simplesmente sido apagadas, sem que nos fosse dada a chance de então, reescrevê-las.
Não adianta olhar pra mim, eu ria. Eu chorava. E até mesmo esses verbos antônimos já não pareciam mais fazer sentido algum diante da cena que se arquitetava diante de meus olhos descrentes.
Em que ano nós estamos, Seu Francisco? A pergunta repetida pela médica ecoava em meu cérebro já vazio de respostas. 1969, veio rápida feito um raio a resposta. O raio atravessou a minha alma.
Pedreiro de profissão, vangloriava-se das muitas construções ao longo da cidade. Reconhecia agora a cidade? Onde estamos? O senhor sabe onde estamos, Seu Francisco? Sei, ali é a Madeireira do Poletti. Ponto para a memória! Devia ter muitas recordações daquele lugar, afinal. Por que é que algumas informações permanecem intactas, enquanto tantas outras simplesmente se vão, sem ao menos se despedir?
Vou pedir um exame. Ele vai aparecer no exame, Dra.?, perguntei, com ânsia e medo da resposta que se seguiria. Sim, se for o Alemão ele vai aparecer.
Nunca desejei tanto que o Alemão não aparecesse, que em semelhança com o que andava acontecendo com seu anfitrião, simplesmente se esquecesse da data da visita, ou mesmo do endereço, ou do fato de ter de ir, não sei, e simplesmente, não aparecesse.
Vou dobrar a dose do remédio. Remédio nunca é bom, tenho pra mim, em dose dobrada, então… Senti um medo genuíno e tão egoísta que me revirou o estômago. Como seria o dia em que meu pai não se lembrasse mais do meu nome? Quanta audácia a minha! Antes de mim, minha mãe, minha irmã (a mais velha e mais parecida com ele), depois de mim, mas essa ordem nunca se seguiu de fato, meu irmão, mais novo que eu; o menino tão desejado, em cujo nascimento meu pai chorou. Por que afinal eu havia me colocado no topo das prioridades da lembrança? O que era prioridade agora, diante da iminente chegada do indesejado visitante internacional?
Que o trem quebre, que o voo seja cancelado! Chega a ser infantil esse meu desejo, talvez porque no fundo desejasse mesmo voltar a ser criança, quando era meu pai que me acompanhava às consultas médicas e não o contrário. Época em que raramente recebíamos visita em casa, e quando recebíamos, eu e minha irmã começávamos a tarefa hercúlea de guardar a bagunça, antes que a porta se abrisse.
Preciso da minha irmã para novamente juntas arrumarmos a bagunça que agora se instaura. Preciso de todos, apesar de nenhum deles ter sido responsável por convidar esse senhor à casa de meu pai.
Meu pai, que ao longo da vida construiu tantas casas… as vê todas desmoronando sob o alicerce, agora frágil da memória.
Uma viagem em família! Para Águas de Lindóia. Excelente ideia! Uma mudança de ares é sempre bem-vinda, afinal. O que não podíamos prever, ou não queríamos, é que ele nos acompanharia.
Nós estamos em casa? Perguntou meu pai. Minha mãe chorou.
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