UM, DOIS, TRÊS…
Toda cidade guarda uma figura conhecida por todos. Alguém cujo nome atravessa gerações e que, quase sempre, se torna personagem das conversas, das lembranças e, infelizmente, das brincadeiras. Na maioria das vezes, trata-se de uma pessoa marcada por alguma deficiência, quase sempre intelectual, transformada, sem que tenha escolhido, em espetáculo para a curiosidade alheia.
Quem não se recorda de alguém assim em sua cidade? Quem, na infância, nunca viu um grupo de crianças chamando essa pessoa na rua, rindo de seus gestos, sem compreender a crueldade escondida na inocência? Quase toda comunidade carrega essa memória, nem sempre motivo de orgulho.
Na minha cidade existe um homem chamado Pedro — Pedro de quê, ninguém sabe. Para todos, ele é apenas Pedro Três Saltinhos.
As crianças não lhe dão descanso. Basta avistá-lo para que o coro comece:
— Pedro, dá três saltinhos!
Então ele para, ajeita o corpo e, quase automaticamente, obedece:
Um, dois, três…
E salta.
As gargalhadas explodem.
O mais triste é perceber que não são apenas as crianças que se divertem. Muitos adultos, que já deveriam ter aprendido o valor da compaixão, também estimulam a cena. Esquecem-se de que diante deles não há um palhaço, mas um ser humano com limitações, alguém que merece respeito, acolhimento e dignidade.
Como se toda diversão precisasse ser paga, alguns lhe oferecem moedas depois da apresentação improvisada. Pedro, porém, surpreende a todos. Apesar de suas limitações, recusa a esmola. Prefere viver do próprio esforço. Trabalha em um pequeno mercado do bairro, fazendo entregas aos clientes com um carrinho carregado de mercadorias.
Mas nem durante o trabalho encontra paz.
Lá vem novamente o coro:
— Pedro, dá três saltinhos!
Ele interrompe a caminhada, larga o pesado carrinho que mal consegue empurrar, respira fundo, endireita-se e, obediente, faz seus três pulos.
Um… dois… três…
A plateia sorri satisfeita.
E a vida segue.
As crianças crescerão. Tornar-se-ão adultos. Terão filhos. E talvez esses filhos repitam o mesmo chamado que ouviram dos pais:
— Pedro, dá três saltinhos!
Assim, os três pulinhos atravessarão o tempo, como uma triste herança transmitida de geração em geração.
Até que um dia Pedro já não consiga saltar. As pernas estarão cansadas. O corpo, vencido pelos anos. Talvez nem consiga mais permanecer de pé.
Então o silêncio substituirá o riso.
E gosto de imaginar que, nesse dia derradeiro, Pedro dará seus últimos um, dois, três… Não para divertir ninguém, mas para alcançar o Céu. Ali, onde não haverá zombarias, apelidos ou humilhações, apenas o descanso reservado aos que tanto carregaram o peso da incompreensão humana.
Quem sabe, diante de Deus, aqueles três pequenos saltos finalmente se transformem no grande salto para a eternidade.
Professor Pedro Troche Gonzalez


