TRÊS CANÇÕES… TRÊS AMANHÃS — II
MANINHA
Há músicas que a gente escuta.
E há músicas que parecem nos escutar.
“Maninha”, de Chico Buarque, é dessas.
Foi composta em 1977, quando o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar. Chico não precisou colocar o nome do regime na letra. Não precisou falar de censura, prisão, tortura ou medo. Bastou falar de lembranças.
E talvez seja justamente isso que torne a canção tão dolorosamente bonita.
Porque ela começa como quem abre um velho álbum de fotografias.
Uma fogueira. Balões. Luares do sertão. Roupa no varal. Feriado. Estrelas. Uma jaqueira. Um jardim. Sonhos de infância.
Tudo aquilo que parecia tão simples.
Tudo aquilo que parecia nosso.
Até que…
ele chegou.
E, depois que ele chegou, alguma coisa mudou.
A canção deixa de ser apenas uma lembrança de infância e passa a ser também uma lembrança de um país.
Um país onde até cantar podia exigir cuidado.
Onde certas palavras precisavam ser escondidas atrás de outras palavras.
Onde o compositor podia falar de amor quando, na verdade, estava falando de liberdade.
E onde o silêncio, às vezes, dizia muito mais do que qualquer discurso.
Chico sabia disso.
Em sua obra dos anos 1970, a realidade política brasileira aparece muitas vezes de forma indireta, atravessada pela censura e pela necessidade de encontrar caminhos para dizer aquilo que não podia ser dito abertamente. O próprio Chico reconheceria mais tarde que aqueles discos carregavam referências constantes à realidade política do país e à luta pela liberdade de expressão.
Mas voltemos à nossa Maninha.
Porque há uma imagem que me persegue.
O jardim.
Antes, flor.
Depois, erva daninha.
Olha aí, leitor!
Às vezes um país também é assim.
Não precisa desaparecer de uma hora para outra. Basta alguém pisar no jardim.
E, quando percebemos, aquilo que era flor virou mato.
Aquilo que era conversa virou desconfiança.
Aquilo que era música virou silêncio.
Aquilo que era futuro virou saudade.
E talvez a parte mais dolorosa seja esta: enquanto alguns jardins eram destruídos, muita gente continuava regando o seu pequeno vaso de plantas, fechando a janela e dizendo:
— Aqui em casa está tudo bem.
Mas a história não acontece apenas dentro de casa.
Ela acontece na rua.
Na escola.
No jornal.
No teatro.
Na universidade.
Na música.
Na praça.
E, principalmente, naquilo que as pessoas têm medo de dizer.
Por isso, quando Chico pergunta à sua “maninha” se ela se lembra do futuro que os dois haviam combinado, a pergunta deixa de ser apenas íntima.
Passa a ser brasileira.
Que futuro nós havíamos combinado?
Talvez um futuro em que ninguém precisasse desaparecer.
Em que ninguém precisasse ter medo de falar.
Em que uma canção pudesse ser apenas uma canção.
Em que uma flor pudesse simplesmente ser uma flor.
E em que o amanhã não precisasse ser imaginado em voz baixa.
Mas há uma delicadeza extraordinária no final.
O personagem continua acreditando.
Ainda criança — embora já não seja criança — ele insiste em esperar que o dia amanheça.
E aqui está o segundo amanhã da nossa história.
Não é um amanhã triunfal.
Não é uma promessa de que tudo dará certo.
É um amanhã teimoso.
Daqueles que continuam existindo mesmo quando alguém tenta apagá-los.
Porque a esperança, às vezes, é a última coisa que sobra quando todo o resto parece ter sido levado embora.
E talvez seja por isso que determinadas canções sobrevivam aos seus próprios tempos.
A ditadura passou.
A censura passou.
Os jardins destruídos podem voltar a florescer.
Mas a memória permanece.
E memória não é viver olhando para trás.
É olhar para trás para saber o que não queremos repetir amanhã.
Talvez seja essa a grande conversa que “Maninha” ainda mantém conosco.
Ela não nos pede vingança.
Não nos oferece certezas.
Apenas nos lembra que aquilo que hoje parece eterno também pode passar.
E que nenhum “ele” deveria se tornar dono permanente do nosso futuro.
Porque governos passam.
Regimes passam.
Homens passam.
Ideologias passam.
Mas o desejo humano de liberdade insiste.
Como uma flor teimosa nascendo justamente no lugar onde alguém jurou que só haveria erva daninha.
E então eu volto à pergunta da canção:
Você se lembra do futuro que a gente combinou?
Eu me lembro.
E continuo esperando.
Porque amanhã…
amanhã ainda é uma possibilidade.
Professor Pedro Troche Gonzalez


