PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES
Caminhando…
Há músicas que a gente escuta.
E há músicas que, de algum modo, escutam a gente.
Elas ficam escondidas em algum canto da memória, esperando o momento certo para voltar. Às vezes reaparecem numa tarde qualquer. Às vezes num rádio velho. Às vezes, como aconteceu comigo, acordam a gente num domingo de manhã, sem pedir licença.
Foi assim que Geraldo Vandré apareceu novamente por aqui.
“Pra não dizer que não falei das flores”, ou simplesmente “Caminhando”.
Eu tinha outra idade, o Brasil tinha outra cara e a liberdade tinha um preço que hoje talvez muitos nem consigam imaginar.
A música chegou aos festivais e encontrou uma juventude inquieta. Ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção, mas isso pouco importou. O público a transformou em símbolo. Depois veio a censura. A canção foi proibida e seu autor acabou deixando o país após o endurecimento da ditadura.
Era uma época em que até uma música podia ser considerada perigosa.
Imagine só!
Uma melodia com poucos acordes conseguindo incomodar um regime inteiro.
Talvez porque o perigo não estivesse nos acordes.
Estivesse nas palavras.
E palavra, quando encontra consciência, pode ser uma coisa danada.
Pode atravessar muro.
Pode passar por baixo de porta.
Pode viajar de boca em boca.
Pode até sobreviver aos seus próprios censores.
E sobreviveu.
Estamos em 2026.
Quase seis décadas depois, a música voltou a bater à minha porta.
E eu fiquei pensando:
O que aconteceu com aquelas flores?
Porque os canhões mudaram.
Os quartéis mudaram.
A comunicação mudou.
Nós mudamos.
Hoje não precisamos necessariamente de uma vitrola escondida para ouvir uma música proibida. Ela está a um clique de distância.
Não precisamos esperar o rádio tocar.
Não precisamos comprar um disco escondido.
Não precisamos escrever uma mensagem num pedaço de papel e torcer para que ela não caia nas mãos erradas.
Hoje temos internet.
Temos redes sociais.
Temos informação em abundância.
Temos opinião para todos os gostos.
Temos especialistas em tudo.
Temos comentaristas de futebol que entendem de economia, economistas que entendem de futebol, políticos que entendem de medicina, médicos que entendem de eleições e, naturalmente, eu mesmo, que não entendo de quase nada, mas continuo escrevendo.
É a democracia digital.
Cada cidadão com um celular na mão e uma verdade absoluta na ponta dos dedos.
Que maravilha!
Ou seria uma nova espécie de problema?
Porque informação não é necessariamente conhecimento.
E gritar não é necessariamente argumentar.
Discordar não é necessariamente odiar.
E votar não deveria significar entregar o cérebro junto com o título de eleitor.
Domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados.
E aqui está o ponto que me interessa.
Não quero dizer em quem você deve votar.
Aliás, Deus me livre!
Cada um que faça sua escolha.
Mas gostaria de fazer uma pergunta:
Estamos realmente escolhendo ou apenas repetindo aquilo que alguém escolheu por nós?
Porque essa talvez seja uma das grandes diferenças entre democracia e torcida organizada.
Na torcida, escolhemos uma camisa.
Na democracia, escolhemos representantes.
E representante não é santo de altar, muito menos dono do país.
É alguém a quem entregamos, temporariamente, uma parte do poder que pertence ao cidadão.
Por isso aquela velha frase de Vandré continua provocando.
Não porque devamos sair marchando atrás de ninguém.
Mas porque existe uma responsabilidade que não pode ser terceirizada:
pensar.
Pensar antes de votar.
Pensar antes de compartilhar.
Pensar antes de transformar o adversário em inimigo.
Pensar antes de acreditar naquele vídeo maravilhoso que confirma exatamente aquilo que eu já queria acreditar.
Porque a mentira mais perigosa não é aquela que parece absurda.
É aquela que diz exatamente o que queremos ouvir.
E talvez seja aqui que a velha canção encontre o Brasil de 2026.
Em 1968, havia censura.
Hoje temos excesso de informação.
Parece o contrário.
E é.
Mas existe uma coisa que pode ser parecida: a dificuldade de enxergar a realidade quando alguém decide pensar por nós.
A história não se repete exatamente.
Ela não é uma música que alguém coloca novamente na vitrola.
Mas algumas perguntas continuam voltando.
Quem fala?
Quem cala?
Quem acredita?
Quem duvida?
Quem pesquisa?
Quem simplesmente acompanha a multidão?
E quem ainda consegue parar no meio do caminho e perguntar:
“Espera aí… será que é isso mesmo?”
Talvez seja essa a flor que ainda precisamos defender.
Não uma flor contra um canhão.
Mas uma flor contra a ignorância.
Contra o fanatismo.
Contra a mentira deliberada.
Contra o ódio que transforma qualquer vizinho em inimigo.
Contra a preguiça de pensar.
Hoje é segunda-feira.
Faltará menos de uma semana para irmos às urnas.
E eu continuo ouvindo Vandré.
Não como quem procura uma palavra de ordem.
Mas como quem procura uma pergunta.
Porque talvez a grande lição daquela canção não seja simplesmente caminhar.
Talvez seja saber para onde estamos caminhando.
E, principalmente, por quê.
As flores continuam por aí.
Algumas nos jardins.
Outras nas praças.
Outras na memória.
E algumas, mais teimosas, continuam nascendo justamente onde alguém jurou que não nasceria mais nada.
Talvez seja por isso que eu tenha acordado cantarolando aquela velha canção.
Não para dizer em quem você deve votar.
Nem para dizer quem tem razão.
Mas simplesmente…
pra não dizer que não falei das flores.
Professor Pedro Troche Gonzalez


