Se você acha que toda empresa é vilã, talvez alguém esteja lucrando com essa crença.

Existe algo que me incomoda na forma como parte da internet passou a discutir trabalho. Não porque os problemas não existam — eles existem e precisam ser enfrentados —, mas porque a conversa deixou de buscar compreensão e passou a buscar audiência.

Hoje, basta abrir qualquer rede social para encontrar o mesmo roteiro: a empresa é sempre vilã, o funcionário é sempre vítima, o empresário é sempre ganancioso, o lucro é sempre suspeito e toda cobrança vira exploração. É uma narrativa simples, emocional e muito eficiente para gerar engajamento, porque poucas coisas mobilizam mais do que oferecer um culpado para a frustração das pessoas.

O que quase ninguém percebe é que muitos desses discursos também vendem algo. Primeiro alimentam a indignação, depois oferecem curso, consultoria, mentoria ou solução. Nesse caso, a revolta não é compromisso com a verdade. É estratégia de marketing.

Isso não significa negar empresas tóxicas, líderes ruins ou abusos reais. Eles existem. Mas transformar casos particulares em regra é desonesto. O mercado é um ambiente de trocas: empresas oferecem oportunidades, profissionais oferecem competências. Quando há valor para ambos, a relação acontece. Quando não há, existem escolhas.

O problema é que assumir essa lógica exige mais maturidade do que apenas encontrar culpados. Exige perguntar: como posso me tornar tão valioso que o mercado passe a disputar minha presença?

Vejo muitos profissionais gastando energia discutindo quanto uma empresa deveria pagar, mas pouca energia desenvolvendo aquilo que realmente aumenta seu valor: competência, comunicação, liderança, produtividade, resolução de problemas e geração de resultados.

O mercado não é perfeito. Nunca será. Mas, no longo prazo, costuma abrir mais espaço para quem gera valor de forma consistente.

Criar uma cultura onde todo empresário é explorador e todo colaborador é vítima não melhora o trabalho. Apenas alimenta ressentimento.

A pergunta final não é se o mercado lhe deve mais.

A pergunta é: seu valor é tão evidente que o mercado teria dificuldade em abrir mão de você?

Pedro Fabrini

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