Quando a emoção entra em campo

A Copa do Mundo de 2026 fechou as cortinas ao som de castanholas. E merecidamente, aliás. Pois a geração do irreverente Lamine Yamal realmente jogou o fino da bola nesses quase dois meses de torneio. De modo que a taça está em excelentes mãos.

Claro, do outro lado, havia Messi: um gênio que talvez tenha dançado o seu último tango na competição – e como todo tango, o belo misturou-se ao trágico para o astro argentino. Mas, em que pese a sempre melancólica medalha de prata no peito de um craque, deixo aqui os meus aplausos à resiliência de “nuestros hermanos”. Afinal, mostraram um espírito de luta – não vou aqui abraçar teorias conspiratórias – que infelizmente faltou aos nossos eternos pentacampeões (e bota eternidade nisso!)…

Mas deixemos a seleção da CBF na Ilha de Ibiza e voltemos a falar dos campeões. Uma das cenas que mais me marcaram nessa Copa ocorreu justamente após os fogos do encerramento. Foi quando o jovem Nico Williams – autor do passe a Ferran Torres que culminou no triunfo espanhol – caminhou até as arquibancadas para entregar a medalha dourada a sua mãe, ganesa. E, posteriormente, ao ser indagado sobre o porquê do gesto, ele disse: “Minha mãe é uma guerreira que atravessou o deserto (Saara) descalça e pulou grávida a cerca de Melilla (no norte da África) para nos dar uma vida melhor”.

Ora, sou pai e também imigrante, e, ao tomar conhecimento das palavras de Nico, não tive como segurar as lágrimas. Pois é isso mesmo! Para todos nós que um dia partimos de nosso país para construir um futuro melhor em outro – enfrentando barreiras linguísticas, culturais etc. –, o fato de poder ver os nossos filhos crescendo e vencendo no país que nos acolheu… ah, não há melhor sentimento no mundo. De modo que, sim, pude compreender plenamente a emoção da família daquele jovem campeão (no futebol e na vida).

Aliás, no mesmo domingo da final, também vivenciei, guardadas as devidas proporções, um momento de pai imigrante através do futebol – momento este que jamais esquecerei. Levei o Endi ao Brazilian Day em Tóquio, que, entre as muitas atrações, possuía um espaço para que os pequenos chutassem ao gol. Havia nesse jogo três alvos, cada um com um nível de dificuldade diferente. Pois bem, para resumir, vi o Endi caminhar para a bola com uma calma assustadora e – zás – estufar as redes: sendo a única criança, diga-se de passagem, a vencer dois dos níveis de dificuldade. E depois ainda chegou para minha esposa e eu, e disse: “Foi fácil”.

Pois então, Signore Ancelotti: da próxima vez que precisar de um batedor de pênalti decisivo, é só avisar.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Autor de dez livros e premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinema. Em 2026, lançou o livro Robôs e Outras Crônicas Nipônicas no Festival do Japão, em São Paulo. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

 

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