O fantasma do pertencimento II, soberania

Superação da moral do rebanho: Ele se liberta das amarras da culpa, da consciência moral tradicional e das coerções sociais que uniformizam o rebanho. Pode-se tudo, desde que supra as necessidades dos complexos adquiridos, mas é claro sob a ótica da cegueira e da necessidade pessoal adormecida, ou apenas escondida.
Buscar o líder igual me torna normal e igualmente importante. Se eu puder vou roubar e comprar 105 imóveis, vou patrocinar a morte de desafetos, ou no caso desafeta. Me associar ao crime organizado, se possível liderar, mas na escuridão da ignorância do outro.
O cenário descreve o desejo de acumulação predatória, a eliminação de desafetos, a associação ao crime e o uso do poder oculto na ignorância alheia — é, sob a ótica nietzschiana, o oposto exato da soberania. Trata-se da manifestação do que ele chamava de “vontade de potência corrompida” ou a revolta dos fracos.
Escravidão dos próprios impulsos: O sujeito que busca ou apoia incondicionalmente crime, tornando o criminoso um líder, e a destruição do outro, ou outros, ou uma nação, para compensar frustrações internas não é soberano. Nietzsche argumenta que esse indivíduo é escravo de seus apetites e de seus complexos. Ele não domina a si mesmo; ele é dominado pelo medo, pela inveja e pela necessidade de validação externa, que se conquista em grupos religiosos, clubes e espaços sociais compostos por membros da sociedade, no Brasil de hoje, chamados de “pobres de direita”. Na verdade, sequer se encaixariam no conceito “direita”, levando-se em conta, o significado real de “direita” e as condições econômicas desses seguidores. Baratas que defendem e protegem inseticidas.
O cumulo se dá ao lutarem contra direitos, que seriam os seus próprios. No passado lutaram por Collor e perderam as economias que levaram uma vida para juntar. Aposentados e trabalhadores apoiaram Bolsonaro, enfrentaram 85% de inflação nos alimentos, chegaram a ter reajustes salariais de 7 reais, tiveram cortes sociais, etc., mas saíram gritando vitória, para não serem subjugados por eles próprios.
Ressentimento: Buscar “o líder igual para se tornar normal e importante” reflete o mecanismo do rebanho. Quando o indivíduo se sente “um nada”, ele busca o poder não para criar novos valores, mas para se vingar do mundo. A corrupção, injustiça e a violência na escuridão são formas de tentar rebaixar a realidade ao nível da própria miséria interna. Afinal, meu líder mesmo não estando certo, me dá poder e me torna um igual.
A soberania de uma nação ou o bem coletivo perdem o sentido para quem opera nessa frequência. Sem a capacidade de governar a própria mente e os próprios instintos, o conceito de soberania (econômica, pessoal ou política) inexiste, restando apenas o impulso cego de sobrevivência e dominação egóica.
Repetindo o que eu disse acima em outras palavras: O que interessa ter soberania num monte de terras raras, se não são minhas, eu nunca terei condições de explorá-las, e se forem do meu país, alguém que não sou eu, vai lucrar, honestamente ou não.
A verdadeira soberania para Nietzsche exige uma disciplina cultural e honestidade sobre si mesmo. O indivíduo soberano não precisa roubar ou destruir na escuridão porque ele extrai sua força da sua própria capacidade de criar, de suportar o sofrimento e de dar sentido à vida sem precisar parasitar ou enganar o outro. Não precisa de um falso líder que assim vá agir para compensar sua frustração e redimir-se de sua inutilidade.
Essa é a lógica prática do descolamento entre o cidadão comum e os discursos abstratos de geopolítica e nacionalismo. Abstratos para eles, vamos deixar claro. Sob a perspectiva da filosofia e da psicologia do poder, esse raciocínio explicita o conflito entre a soberania institucional (o Estado) e a soberania individual (a realidade do sujeito, sua ignorância, seus complexos, falta de perspectivas e desconhecimento sobre o sentido de nação).
Quando o Estado fala em “soberania sobre terras raras” ou recursos estratégicos, ele se refere ao poder de autodeterminação de uma fronteira jurídica. No entanto, para o indivíduo que está na base dessa estrutura, essa promessa frequentemente soa vazia por duas razões principais:
A soberania que não se reverte em bem-estar: De que serve o orgulho nacional de possuir riquezas minerais se eu, o cidadão comum continuo sem condições mínimas de sobrevivência, educação ou ascensão? Se o benefício for coletivo, de nada me interessa.
Na prática, o valor gerado por esses recursos tende a ser coletivizado. Seja nas mãos de elites estatais, consideradas corruptas, o lucro real raramente chega à base de forma justa. O cidadão percebe que a “riqueza da nação” é, muitas vezes, apenas a riqueza de alguns na nação, assim, para esse cidadão, que fiquem com corporações estrangeiras, pelo menos não ficam com um semelhante mais competente, um vizinho odiável ou uma comuna mais inteligente.
O populismo se alimenta do ressentimento coletivo como o fogo se alimenta do oxigênio. Quando uma massa de indivíduos compartilha do mesmo sentimento de impotência e alienação (a sensação de ser “um nada” diante das riquezas das nações e das elites), surge o cenário perfeito para o demagogo corrupto. Aliado aos pastores da fertilização da ignorância, esse campo floresce em berço esplêndido.
O líder populista raramente se apresenta como um modelo de virtude ou intelecto superior. Pelo contrário, ele frequentemente mimetiza os piores traços do rebanho: a linguagem agressiva, os preconceitos e os complexos. O rebanho se identifica com ele porque vê nele a validação de suas próprias frustrações. “Buscar o líder igual me torna normal e igualmente importante”. O maior erro de Lula foi indicar Haddad numa disputa contra um líder populista. Se não há linguagem igual, não há diálogo com o rebanho.
O líder populista não resolve os problemas estruturais, mas oferece ao ressentido algo psicologicamente mais satisfatório: um culpado. Ele aponta o dedo para inimigos visíveis (os intelectuais, artistas, os estrangeiros, os desafetos políticos) e autoriza o rebanho a odiar. O ressentido transfere sua responsabilidade individual para o líder, sentindo um falso senso de soberania e poder ao marchar em bando. Rebanhos prontos para o abate.
Enquanto o homem for movido pelo ressentimento, qualquer sistema político ou econômico que ele construir será inevitavelmente corrompido pela necessidade latente de vingança. Vingança contra mim mesmo. Me vingo ainda que sem reajuste salarial, sem remédios, sem emprego, sem cultura, sem lazer, sem nada.
Para Marx, o sentimento de que “as terras raras são do meu país, mas não são minhas e eu não vou lucrar com elas” não é um delírio ou uma falha de caráter: é o diagnóstico exato e realista de um fenômeno chamado alienação (ou estranhamento).
No sistema capitalista, a riqueza produzida por um território se descola completamente de quem vive nele, se não há cultura sobre a nação e o grupo de cidadãos que habitam um país. Para os ignorantes complexados, tanto faz quem vai lucrar, se não for ele.

Antonio Sonsin

Saber mais →

Deixe um comentário