Do sertão de onde veio, a duras penas, chacoalhando no pau de arara, a menina-mulher não trouxe nada além da poeira nas sandálias de couro e sonhos. A pele ressequida, mas a alma inundada de esperança. Fugia da sina que o sertão lhe oferecia, trazia na mala de couro antiga, doada pela mãe, a quem deixou chorosa acenando à porta do casebre, as esperanças de todo um povo.
Povo aguerrido esse seu, que aprendeu com as intempéries a dominar as rédeas da própria existência. Que não se submete nem mesmo às forças da natureza, que dirá aos desmandos de quem o subestima e à sua inteligência.
Povo esse que ajudou a construir a riqueza de São Paulo, e segue construindo-a.
Na primeira curva que o ônibus antigo fez, ela chorou. A casa de seus pais sumiu na paisagem árida, sumiram com ela também, sua coragem e sua gana, mas apenas provisoriamente. A cada solavanco que a suspensão do velho veículo suportava, suportava ela também a saudade, engolindo o choro misturado à terra santa que a vira nascer. Nem todos sobreviviam a ela, muitos, inclusive dois irmãos seus vira tornarem-se anjinhos.
Não, ela não fugia de sua terra natal, apenas migrava, feito pássaro desejoso de um céu onde finalmente pudesse voar à envergadura de suas asas. O sertão era até então um lugar esquecido, abandonado pelos poderosos…
Mas seu povo, ah, seu povo forjado na aspereza de uma terra que pouco oferece, e nada gratuitamente, forjado na bravura de Lampião, na sede, que não se limita a uma necessidade fisiológica ainda que essa se imponha sobre todas as outras, mas sede de justiça, sede de conhecimento e de oportunidade.
Foi com essa sede e com o coração embargado de medo esperança que a menina migrou. Pássaro filhote, mas já ferido pela vida, ousou alçar seu voo mais esperado. Trouxe no ventre pueril, sementes de vidas, outras tantas vidas severinas, nas mãos, aptas de desejosas de trabalho, sonhos incontáveis, na mente, alinhada ao coração, vida!
Voltou anos mais tarde, a casa empoeirada ainda acenava na curva da estrada, sem que ninguém mais a habitasse. Dessa vez, fizera o trajeto de avião, e o restando do caminho seguira de carro. A cidade era outra, ela era outra, quase não se reconhecia nas cantigas que as meninas ainda cantavam e que haviam povoado sua infância. Mas ainda tinha vontade de ver sua terra, era parte dela, estava misturada àquela terra, sangue, entranhas, desejos mais ocultos.
Havia água nas torneiras, e sonhos povoando as mentes infantis. Sua terra amada fora finalmente olhada e vista. O desempenho escolar dos meninos destacava-se dentre as demais regiões do país. As redações então, atingiam as maiores notas. Um povo que sabe escrever sua história, a duras penas, doa a quem doer. Seu povo era inteligente por demais, a força que lhes era nata finalmente encontrara meios de provar-se. O sertão era referência de gente, gente letrada, instruída, politizada.
Minha gratidão ao povo nordestino. Seguimos juntos contra a aspereza da vida!
“Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o lugar”.
João Guimarães Rosa
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