{baseado na peça “Ícaro (A Casa)”}
Autor: Nilton Bustamante
Ó, Ícaro, que trazes em teu corpo?
Serão asas?
Serão amarras?
O que deverá ser contido ou libertado?
Será o receio? Será o espelho? Será a transgressão, conhecer o novo, ou o medo de não mais colocar os pés no chão?
Ó, Ícaro, como podes voltar e nos apresentar cada compartimento de nossa alma?
O que devemos explorar que ainda não sabemos?
Nossas salas de estar e de não estar, o social para apresentar… O quarto cheio de velas no calor dos sonhos sepultados… Nós o sabemos,
Nós o sabemos, sabemos e nos esquecemos. Melhor assim, tu sabes… a cobrança!
Ó, Ícaro, por que não segues e voas daqui? Por que ainda insistir em voltar e querer nos mostrar que do alto tudo é lindo, possível?
Não nos assanhes, não nos enganes mais com tormentos, estamos com nossas escovas de dentes à mão, tu não vês?
Mas, cá entre nós, segredo: tentamos contemplar as estradas com laranjais pelo caminho, iniciamos o jogo de xadrez sem ser com as pedras brancas!…
Ó, Ícaro, ó, Ícaro, tem a compaixão de comer mais uma banana amassada com maternas mãos de correias estiradas, prontas para nos ensinar, ó contradição!
Não adianta bater a porta, explodir as comportas; a cada porta batida, a cada retorno da ação e reação vêm as imagens que nos perseguem, que nos impedem.
Tradição, grades cada vez mais grossas, mais insensatas… o peso, o desconcerto, a discórdia, outra vez a prisão!
Ó, Ícaro, meu irmão, meu pai,
Quais os crimes, quais os ditames prejudicados, quais as representações, as opiniões disfarçadas?
Por que a pressa, a fuga? Tome ao menos um café, dê baforadas de fumaça e de escárnio, faça cenário até adormecer…
Ó, Ícaro, por que voltaste?
Somos pesados, carga difícil, deixa-nos em nossos labirintos! Melhor assim…
Ai, esse compartimento estreito, baixo, sufocante! Tu sabes bem… Sim, há bolo e chá! Não é suficiente… Mas, à noite, olhamos os céus antes de entrar. Quem sabe,
Quem sabe as estrelas com asas de cera… quem sabe?
Ah, Ícaro, não entendeste ainda? Ou não entendemos nós?
Fizeste o voo daqueles que não suportam as mesmas botas, nem as mesmas vinte e quatro horas!
Agora, vens nos jogar na cara que as estradas dos laranjais possuem ratos e escorpiões pelos seus cantos! Por que essa perseguição? Por que não nos deixas?
Ó, Ícaro,
Viestes das alturas para nos deixar sua pena, suas penas marcando o caminho, a saída, o labirinto guardado e tudo mais…
Ó, Ícaro, Ícaro, Ícaro,
Viestes das alturas para nos dizer… ÍCARO, SOMOS NÓS!



