Férias escolares: por que as crianças também precisam do ócio?

“Mãe, não tem nada para fazer!”

Se você tem filhos em idade escolar, provavelmente já ouviu essa frase nos primeiros dias de férias. E, muitas vezes, ela vem logo depois de uma lista de sugestões recusadas: brincar com os brinquedos, montar um quebra-cabeça, jogar um jogo de tabuleiro, desenhar, pintar, fazer uma receita, ler um livro ou criar qualquer atividade que exija um pouco mais de dedicação, concentração e tempo.

Mas basta mencionar televisão, videogame, tablet ou celular para o interesse aparecer imediatamente.

Não há dúvida de que as telas fazem parte da infância de hoje e podem, inclusive, oferecer momentos de lazer e aprendizado. O desafio está quando elas deixam de ser uma opção e passam a ser a única forma de entretenimento.

É importante reconhecer também a realidade das famílias. As férias escolares não significam férias para os pais. Muitos continuam trabalhando, conciliam reuniões em home office, reorganizam a rotina entre avós, babás, vizinhos e outros familiares para garantir que as crianças estejam bem cuidadas. Nessa correria, a tela acaba sendo a alternativa mais prática para manter os filhos entretidos enquanto o trabalho precisa acontecer.

Não há culpa nisso. O problema é quando esse recurso ocupa praticamente todo o tempo livre.

As telas oferecem estímulos rápidos, novidades constantes e recompensas imediatas. Já atividades como construir, desenhar, pintar, criar, brincar de faz de conta ou montar um quebra-cabeça exigem persistência antes da diversão acontecer. É justamente esse processo que fortalece habilidades importantes, como atenção, criatividade, resolução de problemas, autonomia e tolerância à frustração.

Outro aspecto que merece atenção é o valor do ócio. Durante muito tempo, acreditou-se que toda criança precisava estar ocupada o tempo inteiro. Hoje sabemos que isso não é verdade. O ócio saudável — aquele momento em que a criança não recebe um estímulo pronto e precisa inventar o que fazer — favorece a imaginação, a criatividade, a curiosidade e a capacidade de encontrar soluções. O famoso “tédio” nem sempre é um problema; muitas vezes, é o ponto de partida para as melhores brincadeiras.

Isso não significa eliminar as telas das férias. Elas também podem fazer parte da rotina. O importante é que exista equilíbrio. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que o tempo de lazer em frente às telas seja limitado e, para crianças em idade escolar, uma boa referência é buscar não ultrapassar cerca de duas horas por dia, sempre considerando a idade, a maturidade da criança e a realidade de cada família.

Uma estratégia que costuma funcionar muito bem é estabelecer combinados antes que os conflitos apareçam. Definir horários para as telas, alternando com momentos de leitura, brincadeiras livres, atividades criativas, pequenas responsabilidades em casa, tempo ao ar livre e descanso, ajuda a criança a compreender a rotina e reduz as discussões sobre “só mais cinco minutos”.

Uma rotina visual, com os horários organizados e as atividades distribuídas ao longo do dia, também pode ser uma excelente aliada, especialmente para crianças menores ou neurodivergentes. Quando elas sabem o que esperar, sentem-se mais seguras e tendem a colaborar melhor com os combinados.

As férias não precisam ser preenchidas por uma agenda lotada, nem transformadas em uma extensão da escola. Também não precisam acontecer diante de uma tela o dia inteiro. O equilíbrio continua sendo o melhor caminho.

Porque, muitas vezes, depois de dizer “não tenho nada para fazer”, basta um pouco de tempo — e um pouco de ócio — para que a criança descubra que a imaginação ainda é uma das melhores companhias das férias.

Ligia Nobrega Barbosa

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