CUTUCANDO O VESPEIRO V — E FIM!
E QUEM ESTAVA DO LADO DE FORA?
Chegamos ao último capítulo da nossa pequena novela.
Depois de falar de tortura, desaparecimentos, mortes, censura, perseguição às artes, à imprensa, aos estudantes, aos professores e a tantos outros que ousaram pensar diferente, talvez alguém pergunte:
— Mas precisava falar tanto disso?
Precisava.
E talvez ainda precise.
Porque a história não é feita somente daqueles que estavam dentro das celas.
Ela também é feita daqueles que estavam do lado de fora.
Enquanto alguém era interrogado numa sala escura, alguém tomava café.
Enquanto uma família procurava notícias de um filho desaparecido, alguém ia trabalhar.
Enquanto um jornal recebia tesouradas da censura, alguém comprava pão.
Enquanto um artista era proibido de cantar, alguém ligava o rádio.
Enquanto estudantes eram perseguidos, havia quem dissesse:
— Eu não me meto em política.
E a vida seguia.
Essa talvez seja uma das perguntas mais incômodas de todas:
Como uma sociedade consegue continuar vivendo normalmente enquanto coisas anormais acontecem ao seu redor?
Antes que alguém se ofenda, não estou falando de toda a população. Seria injusto e historicamente simplista colocar todo mundo no mesmo saco.
Havia quem resistisse.
Havia quem tivesse medo.
Havia quem não soubesse.
Havia quem soubesse e fingisse não saber.
E havia também quem acreditasse sinceramente que aquilo tudo não lhe dizia respeito.
É aí que mora o nosso vespeiro.
Porque a alienação não precisa necessariamente de uma ordem.
Às vezes ela se apresenta de maneira muito mais simpática.
Chega vestida de bom senso.
— Não se meta nisso.
— Política não é assunto para família.
— Melhor deixar quieto.
— Quem não deve não teme.
— Alguma coisa esse sujeito fez.
E pronto.
Fecha-se a janela.
Fecha-se o jornal.
Fecha-se a conversa.
E, quando possível, fecha-se também a consciência.
Nas cidades do interior, onde todo mundo conhece todo mundo — ou pelo menos pensa que conhece —, essa questão ganha contornos ainda mais curiosos.
O sujeito desaparece.
A notícia corre.
Mas ninguém sabe de nada.
Ou melhor:
Todo mundo sabe alguma coisa.
Só não sabe exatamente o quê.
E, por via das dúvidas, é melhor não perguntar.
Porque perguntar pode trazer problemas.
E problema, naquela época, era uma coisa que ninguém queria levar para casa.
Assim, a normalidade podia ser uma espécie de esconderijo.
O comércio abria.
A escola funcionava.
O ônibus passava.
O futebol acontecia.
O padre celebrava.
O cinema exibia seus filmes.
A moça ia ao salão.
O rapaz ia namorar.
E o país continuava andando.
Só que havia gente que não podia andar.
Havia gente presa.
Havia gente escondida.
Havia gente exilada.
Havia famílias esperando.
Havia mães sem notícias.
Havia pais procurando filhos.
E havia uma pergunta que muitas vezes não podia sequer ser feita em voz alta.
A Comissão Nacional da Verdade reuniu documentação sobre essa estrutura repressiva e identificou centenas de mortos e desaparecidos políticos, além de registrar a existência de mecanismos de censura, vigilância e repressão política.
Mas nenhum relatório consegue registrar completamente aquilo que acontecia dentro da cabeça de milhões de pessoas.
O medo.
O silêncio.
A dúvida.
A acomodação.
Aquela velha frase:
“Não é comigo.”
Talvez seja justamente aí que a história deixe de ser apenas história e passe a ser uma pergunta para nós.
Porque é muito fácil olhar para trás, cinquenta ou sessenta anos depois, e dizer:
— Eu teria resistido.
Será?
É uma pergunta difícil.
E eu não tenho a menor intenção de respondê-la pelos outros.
Talvez eu nem conseguisse respondê-la por mim.
Porque coragem histórica é uma coisa.
Coragem depois que o perigo passou é outra.
Hoje sabemos o que aconteceu.
Temos documentos.
Temos testemunhos.
Temos nomes.
Temos famílias que passaram décadas procurando respostas.
Temos o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, que justamente procurou tirar do silêncio acontecimentos que durante muito tempo permaneceram escondidos ou negados.
Mas naquela época?
Naquela época, muita gente não tinha internet.
Não tinha redes sociais.
Não tinha celular.
Não tinha acesso imediato à informação.
E informação também era controlada.
Então não se trata de perguntar simplesmente:
“Por que ninguém fez nada?”
A pergunta talvez seja outra:
“O que acontece com uma sociedade quando o medo, a censura e a desinformação conseguem fazer com que o sofrimento do outro pareça não ser problema nosso?”
Essa pergunta é muito mais perigosa.
Porque ela não termina em 1985.
Ela atravessa gerações.
E chega até nós.
Talvez a maior vitória da alienação não seja convencer alguém de que uma mentira é verdade.
Talvez seja convencê-lo de que a verdade não lhe interessa.
E quando a verdade deixa de interessar, a história fica perigosamente fácil de apagar.
Foi por isso que começamos esta série falando das atrocidades.
Não para disputar quem sofreu mais.
Não para transformar mortos em bandeiras.
Não para acusar uma geração inteira.
Mas para lembrar que uma democracia não se sustenta apenas porque existem eleições.
Ela também precisa de memória.
Precisa de informação.
Precisa de liberdade para perguntar.
Precisa de gente capaz de dizer:
— Espera aí. Isso está errado.
Porque toda sociedade precisa de alguém disposto a fazer essa pergunta.
Mesmo quando ela incomoda.
Mesmo quando ela provoca.
Mesmo quando alguém responde:
— Lá vem esse sujeito de novo…
Sim.
Lá vem ele de novo.
Porque foi exatamente para isso que começamos:
Para cutucar o vespeiro.
E, depois de cinco capítulos, talvez tenhamos descoberto que o vespeiro não estava apenas naqueles porões escuros.
Ele também podia estar dentro da nossa indiferença.
Dentro do nosso silêncio.
Dentro daquele confortável:
“Não é comigo.”
E talvez seja por isso que eu termine esta série sem uma conclusão.
Prefiro deixar uma pergunta.
Uma pergunta simples.
Daquelas que podem acompanhar o leitor até a cama.
Até o café da manhã.
Até a próxima conversa.
Até o próximo silêncio.
Se amanhã alguma injustiça acontecer ao nosso lado, nós vamos perguntar o que está acontecendo?
Ou vamos fechar a janela…
e continuar tomando café?
Fim?
Talvez.
Porque vespeiro, quando a gente cutuca uma vez, nunca mais volta a ser exatamente o mesmo.
Paz e bem.
Por sugestão e supervisão do Professor Mário Doro
Professor Pedro Troche Gonzalez.


