Criadores do Possível XXXIII – “O machista que habita em nós!” por Gianmarco Bisaglia

A cerveja dele é sagrada, a vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada, sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado e meu corpo é uma fogueira
Enquanto ele dorme pesado eu rolo sozinha na esteira… 
(Sem Açúcar – Chico Buarque)

Esta semana, em um grupo informal, ouvi com perplexidade a afirmação que o Brasil é “o país mais macho do mundo”. O suposto elogio e apologia ao suposto sexo dominante, guarda na verdade um dos mais covardes e tristes comportamentos coletivos que afligem a sociedade brasileira – o discurso de ódio contra as mulheres vem se consolidando como uma “resistência” aos questionamentos do machismo estrutural, feito por (ainda) pequenas parcelas da sociedade, mas suficientes para assustar homens pouco conscientes de seu papel social.

O Brasil acumula há anos, alarmantes e vexatórios recordes de feminicídio, contando muitas vezes com a cumplicidade das forças de segurança pública, da igreja, e da classe política. Na cartilha do machismo estrutural, quase “naturalizada” como “vontade de Deus”, mulheres devem ser subservientes ao homem e cuidar da família (sic).

Quando o homem assedia, trai, agride, violenta e mata mulheres, raramente a igreja condena estes comportamentos como “pecado capital” condenando este homem à danação eterna. Mas a mulher que trabalha é vista como traidora da família, na realidade distorcida da machosfera que ignora (e condena) que a maior parte das famílias brasileiras são sustentadas pelo trabalho de mulheres, sejam casadas ou mães solo (estas que, longe de serem “terroristas do feminismo”, apenas se cansaram de tentar ter um homem sério ao lado…).

Esse movimento de reafirmação da testosterona está em alta no futebol, nas empresas, na política, nas redes sociais, misturando elementos simbólicos desses espaços, como o craque, o herói, o mega empreendedor, o santo, o político salvador, o líder, sempre representados como o macho alfa padrão. que hoje precisa fazer cursos e workshop para aprender ser homem.

(aliás, me pergunto por que um homem que defende a “família”, gasta uma tremenda grana do orçamento familiar, deixa o convívio com esposa e filhos, para participar de um wokshop com outros homens, literalmente suando para entender o seu macho papel na sociedade… estamos muito doentes, não?)

A misoginia é uma bandeira muito presente no palco predileto de todos os idiotas do planeta: a internet! Vemos abomináveis demonstrações de menosprezar as causas femininas, transformado a legítima busca das mulheres por autonomia e independência, em bandeiras de “luta” e defesa do machismo.

O que me surpreende é que muitas mulheres participam deste discurso – o machismo não é dos homens, é da sociedade, chancelado por mulheres que se conformaram inconscientemente com seu papel secundário de servir à família, sustentada por homens que carregam por sua vez o estigma do provedor-salvador, mas que lá no fundo, são seres imaturos acorrentados ao profundo pavor de parecerem gays, ou serem cornos.

A violência doméstica, um dos perversos frutos deste modelo patriarcal, traz danos irreparáveis às famílias e à sociedade. Mas continuamos a aceitar de forma inconsciente, o papel de subserviência-obediência da mulher, que como PETs, “devem” ou “merecem” ganhar menos, trabalhar mais, falar menos, calar mais, uma obrigação divina naturalizada por um Deus… homem!

Como promover mudanças? Tenho certeza que não devemos combater violência com violência; confrontos só ativam nossa inteligência primitiva, onde reagimos instintivamente ao que nos ameaça, tirando possibilidades de compreensão e diálogo. Mas percebo e participo de uma revolução sutil e silenciosa em curso, onde homens e mulheres tomam consciência dos ISMOS (machismo, consumismo, racismo, para citar alguns), verdadeiras camisas de força que definem nossa sociedade atual, e cada vez mais são percebidas como causas geradoras de situações de desespero, conflito, violência, miséria, e nada agregam para construção de um mundo onde vamos enxergar luz e paz.

Assim vamos protagonizando, polinizando, educando, conscientizando, promovendo “small bangs”, essas pequenas transformações nas empresas, nas escolas, nos fóruns públicos, nas políticas sociais, no judiciário, no mundo acadêmico… acredito que com o tempo, este movimento emergente vai influenciar a transformação da sociedade, onde a igualdade de gênero será valorizada e naturalizada.

Este ponto de virada ainda acredito estar distante, mas misoginia e a violência serão enterradas com o machismo estrutural, que perderá sua força e a chancela das estruturas de poder que moldam a sociedade. No momento cabe refletir e olhar para dentro de nós, perguntando onde ainda se esconde esse ou essa machista, que defende automaticamente “verdades” e dogmas moralistas que definitivamente já não nos convém.

 

Gianmarco Bisaglia

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