COISAS DE TERÇA-FEIRA

COISAS DE TERÇA-FEIRA

 

Pouco antes do almoço de terça-feira, estava eu viajando numa melodia do meu “guru”, Raul Seixas:

“Minha espada erguida para a guerra,                                                                                                                                                   com toda fúria que ela encerra                                                                                                                                                           e, no entanto, tão doce… tão doce…”

Enquanto ouvia aquela voz que sempre me leva a regiões pouco recomendáveis do pensamento, observava atentamente meu bonsai, Tayná, que, com sua pequenez majestosa, enche minha alma de paz.

Foi quando Ela irrompeu no interior do meu escritório, sem se fazer anunciar.

Tinha a pele transparente, o olhar inexpressivo e os cabelos pretíssimos. O rosto, impassível; a voz, um tanto estridente; os movimentos, apressados.

Diante daquela figura espectral, divaguei para não sei qual região do inconsciente.

E então me reconheci na humanidade moribunda.

Seria possível que o HOMEM ainda não tivesse sequer uma pequena ideia de sua insignificância?

Crê-se superior, indestrutível, dono do planeta, senhor da verdade e, se deixarem, provavelmente candidato a proprietário do Universo.

Não percebe que está tomando o atalho mais curto para a própria autodestruição?

Não quer saber a que ciclo pertence. Não aceita seguir seus desígnios naturais. Revolta-se contra aquilo que não pode controlar e, numa demonstração admirável de inteligência, resolve combater a própria Natureza que lhe permite existir.

A Natureza, essa velha senhora sábia, cumpre silenciosamente o seu papel. Não se importa se hoje é terça-feira, se é noite ou se é outono. Não reclama do frio, não faz greve contra a chuva, não pede explicações ao vento e, sobretudo, não exige que o mundo se adapte aos seus caprichos.

A Natureza adapta-se.

O Homem, não.

O Homem — esse magnífico exemplar da criação, que inventou a roda, a pólvora, a bomba atômica e, mais recentemente, maneiras cada vez mais sofisticadas de destruir a própria paz — insiste em contrariá-la.

Quer modificar tudo, menos a si mesmo.

Eis aí a grande inteligência humana!

Transformamos rios, derrubamos florestas, alteramos o clima, exterminamos espécies e, quando alguma coisa dá errado, olhamos para o céu com a inocência de quem não tem absolutamente nada a ver com aquilo.

Talvez o Homem ainda não tenha entendido uma coisa elementar: não é a Natureza que precisa ser domesticada. Somos nós que precisamos aprender a viver nela.

Fiquei divagando.

Não atinei o motivo daquela visita espectral. Talvez ela própria não soubesse. Talvez fosse apenas mais uma daquelas mensagens que a vida nos envia sem remetente e sem instruções de uso.

Logo após o almoço de terça-feira, recebi a visita de outro ser espectral.

Este transpirava, por todos os poros, vaidade e luxúria.

Falava de si mesma com entusiasmo. Dizia ser bela, usar belos vestidos e calçados e acreditar exercer irresistível poder de fascínio sobre os outros.

Até aí, nada de extraordinário.

O extraordinário veio depois.

No instante seguinte, afirmava não saber o que lhe acontecia, pois não conseguira manter um simples relacionamento a dois. Contava ainda que seus próprios filhos, às vezes, amedrontavam-se diante de seu comportamento tão…

Bem…

Deixemos os adjetivos para os especialistas.

Fiquei novamente pensando.

Talvez seja justamente aí que esteja o nosso problema.

Passamos a vida tentando parecer aquilo que não somos, conquistar aquilo de que não precisamos e impressionar pessoas que, muitas vezes, nem sequer estão impressionadas.

Queremos ser admirados, desejados, respeitados, invejados e, se possível, fotografados.

E quando finalmente conseguimos tudo isso, descobrimos que continuamos exatamente como antes:

vazios.

Talvez a Natureza tenha razão.

Ela não precisa provar nada a ninguém.

Uma árvore simplesmente cresce. Uma flor simplesmente floresce. Um rio simplesmente corre.

E nós?

Nós complicamos.

Criamos teorias, filosofias, religiões, ideologias, egos, vaidades, guerras, divórcios e até manuais para ensinar como devemos ser felizes.

E ainda assim, continuamos sem saber viver.

Fiquei olhando para o meu bonsai.

Tayná permanecia ali, silenciosa, serena, pequena e sábia.

Não reclamava.

Não discutia.

Não queria mudar ninguém.

Talvez por isso mesmo fosse infinitamente mais inteligente do que nós.

E foi então que me veio uma conclusão bastante desagradável:

talvez não sejamos tão diferentes assim.

Aquela mulher, aquele homem, eu, você, todos nós…

Homem e mulher!

Criaturas espetaculares, contraditórias, vaidosas, frágeis, apaixonadas, arrogantes, carentes e absolutamente convencidas de que sabem o que estão fazendo.

E tudo isso…

numa simples terça-feira.

 

Professor Pedro Troche Gonzalez

Pedro Troche González

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