A FILA
Poucas coisas são tão democráticas quanto uma fila. Nela, ao menos em teoria, desaparecem títulos, cargos, diplomas e contas bancárias. O cidadão que ontem assinava documentos importantes e o que passava o dia inteiro carregando peso acabam lado a lado, unidos por um mesmo destino: esperar.
A fila, que durante muito tempo foi vista apenas como um inconveniente inevitável da vida moderna, tornou-se uma espécie de espelho da sociedade. Basta observá-la para descobrir quem somos. Há os resignados, que aceitam seu lugar com filosofia; os distraídos, mergulhados na tela do celular; os impacientes, que consultam o relógio a cada trinta segundos como se isso acelerasse o tempo; e os eternos especialistas em atalhos, convencidos de que as regras existem apenas para os outros.
Antigamente, as filas mais famosas eram as dos bancos, dos cinemas, das rodoviárias e dos pontos de ônibus. Hoje, continuamos enfrentando muitas delas, embora a tecnologia tenha prometido libertar-nos desse sofrimento ancestral. Curiosamente, quanto mais aplicativos surgem para economizar tempo, mais parece que estamos correndo atrás dele. Trocamos a fila física pela fila virtual, mas a espera continua firme e forte, apenas mudou de endereço.
As filas do transporte coletivo, porém, ainda conservam um protagonismo especial. Quem nunca viu uma delas serpentear pela calçada em horário de pico? Ali estão estudantes, professores, comerciários, aposentados, trabalhadores de todas as áreas, compartilhando o mesmo cansaço e a mesma esperança de chegar em casa antes que a paciência acabe. Enquanto isso, as cidades continuam crescendo, muitas vezes sem planejamento, como se o trânsito, a mobilidade e o conforto dos cidadãos fossem detalhes de menor importância.
É justamente nesses momentos que a natureza humana se revela. Alguns reclamam dos governantes, outros do motorista, do clima, da economia ou do universo em geral. Há quem transforme a espera em comício, sessão de terapia ou mesa-redonda esportiva. E há os que concluem que o mundo seria perfeito se todos os demais aprendessem a se comportar.
Apesar de tudo, é preciso reconhecer uma virtude das filas: elas representam uma das formas mais simples de igualdade social. A regra é clara, compreensível e razoavelmente justa: quem chega primeiro é atendido primeiro. Num país onde tantas normas parecem sujeitas a interpretações criativas, essa simplicidade chega a ser comovente.
Talvez por isso a fila mereça mais respeito do que costuma receber. Ela exige paciência, disciplina e consideração pelo próximo — qualidades que não estão exatamente na moda. Em tempos de imediatismo, em que todos desejam tudo para ontem, a fila continua ensinando uma velha lição: viver em sociedade implica esperar a nossa vez.
E convenhamos, se aprendêssemos essa lição fora das filas, talvez elas até andassem mais depressa.
PEDRO TROCHE GONZALEZ


