A CASA DOS NOSSOS AVÓS

A Casa dos Nossos Avós

Aos três anos de idade, fiquei órfão de mãe. Meu pai partiu para o estrangeiro em busca de melhores rendas.

Fiquei sob os cuidados de meus avós paternos.

Ela me ensinou os valores da ética, da moral, da espiritualidade e do saber.

Ele me ensinou a amar a pátria, a natureza, o trabalho na terra — e contava, como ninguém, histórias de sua juventude.

Quando, como que combinados, se foram, quase juntos, para o além, deixaram-me quase preparado para o grande desafio que é a vida.

E que desafio!

No início da jornada, seus ensinamentos se fizeram presentes — sobretudo os espirituais — exercendo forte influência sobre meus pensamentos, como sugestões sutis a orientar meus comportamentos, muitas vezes de forma imperceptível.

Essa espiritualidade conduziu-me por veredas esotéricas. Tais visões, de natureza mística e espiritualista, revelaram-me a ideia de uma Consciência Coletiva: um campo energético e psíquico compartilhado, que une a humanidade para além das mentes individuais.

Acredita-se que todas as consciências humanas estejam conectadas em um nível profundo. Nossos pensamentos, emoções e intenções alimentariam essa dimensão comum. Assim, embora nos percebamos separados, a visão esotérica sugere que, em essência, somos um.

Diferentemente da abordagem sociológica, que a entende como um conjunto de crenças partilhadas, o esoterismo a interpreta como um verdadeiro “oceano” de energia mental e espiritual — frequentemente associado ao conceito de Inconsciente Coletivo, formulado por Carl Jung.

O Inconsciente Coletivo, conceito central da psicologia analítica, por onde enveredei meus saberes, corresponde à camada mais profunda da psique humana, comum a toda a humanidade. Diferente do inconsciente pessoal, ele abriga memórias ancestrais, padrões de comportamento e imagens universais — os chamados arquétipos.

Esses arquétipos — como a mãe, o herói, o sábio, a sombra — são estruturas primordiais que influenciam nossa percepção do mundo e nossas reações diante dele. Não são adquiridos individualmente, mas herdados, constituindo uma base psíquica comum que atravessa culturas e épocas, manifestando-se em mitos, religiões, sonhos e narrativas.

O inconsciente coletivo, portanto, exerce influência contínua sobre a mente individual, moldando emoções, medos e comportamentos, muitas vezes sem que nos demos conta.

Enquanto isso, na sociologia, a “consciência coletiva”, conceito de Émile Durkheim, refere-se ao conjunto de crenças e normas compartilhadas por uma sociedade.

Em ambos os casos, permanece a ideia de uma base comum que nos conecta — um repositório profundo de saberes e experiências humanas.

Mas confesso: pus-me a tergiversar para evitar o “X” da questão.

Vamos a ele.

O quanto, como sociedade, estamos sendo estimulados a pensar criticamente?

Vivemos um tempo paradoxal: nunca tivemos tanto acesso à informação — e, ainda assim, não nos tornamos necessariamente mais críticos. O ambiente digital, ao mesmo tempo que amplia horizontes, favorece o consumo rápido, superficial e, muitas vezes, enviesado.

Assistimos ao crescimento de uma espécie de “inconsciente coletivo digital”, alimentado por redes sociais e por um certo desinteresse em relação às questões políticas.

Trata-se de um fenômeno complexo, no qual as redes funcionam como catalisadoras de emoções, criando bolhas informativas, reforçando polarizações e, não raro, enfraquecendo o debate racional.

Entre os fatores que sustentam essa realidade, destacam-se: a manipulação emocional — especialmente pelo medo e pela ira —, a fadiga política, o narcisismo contemporâneo, as chamadas echo chambers e a disseminação de desinformação.

É o que ocorre quando uma geração já não se vê representada por sua classe política.

Observa-se, assim, uma mudança estrutural no comportamento humano: marcada pela ansiedade, pela hiperconectividade e pela busca incessante por pertencimento.

Nesse cenário, o indivíduo deixa de ser apenas espectador e passa a atuar como coautor cultural — ainda que, muitas vezes, em um ambiente de grande vulnerabilidade.

As consequências são visíveis: crises de ansiedade, episódios de pânico e, em casos mais extremos, o desespero silencioso de quem já pensou em desistir da própria vida.

Tudo isso sob a pressão de um ideal de sucesso, em um mundo onde a estabilidade financeira se tornou quase um imperativo existencial.

Caminhamos, a passos largos, rumo a esse admirável mundo novo de incertezas — que, pouco a pouco, nos afasta, com inquietante rapidez, da casa dos nossos avós.

Pedro Troche Gonzalez

Pedro Troche González

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