A CALÇA CURTA QUE EU NUNCA TIREI

A CALÇA CURTA QUE EU NUNCA TIREI

 

Há músicas que a gente escuta.

E há músicas que escutam a gente.

Esta eu conheci quando ainda usava calça curta, lá no Paraguai. Naquele tempo, eu não sabia absolutamente nada sobre composição, poesia, nostalgia ou essas coisas que os adultos inventam depois que envelhecem. Eu simplesmente gostava da música.

Hoje descobri que ela tinha o inconveniente hábito de guardar a minha infância.

Bastam alguns acordes e pronto: lá estou eu outra vez, menino, correndo pela rua, com o joelho provavelmente ralado, o bolso cheio de alguma coisa que não deveria estar ali e uma convicção absoluta de que o mundo inteiro cabia naquela rua.

A bola não precisava ser de couro.

Cinco meias enroladas resolviam o problema.

Se aparecesse um cachorro abandonado, melhor ainda: em poucos minutos ele deixava de ser cachorro e passava a ser mascote oficial do nosso time. Não precisava de contrato, veterinário, uniforme ou patrocinador. Bastava acompanhar a molecada.

E se perdêssemos o jogo?

Perdíamos.

Por um gol.

E aquilo era uma tragédia esportiva de proporções internacionais… até aparecer outra brincadeira.

Hoje, quando vejo crianças entretidas com brinquedos que custam uma pequena fortuna, fico pensando que nós éramos especialistas em transformar quase nada em quase tudo.

Um pedaço de madeira podia virar espada.

Uma lata, volante.

Um aro, veículo.

Um jornal, barco.

Uma poça d’água, oceano.

E uma bolinha de gude podia valer dois dentes de leite, uma bronca monumental da velha e uma guerra civil entre garotos.

Mas era minha.

E isso bastava.

Havia também os dias de vento.

Meu avô dizia que os anjinhos desciam do Sol e dançavam presos às pipas. Eu acreditava.

Por que não acreditaria?

Naquele tempo, ninguém havia nos explicado que anjos precisavam passar por comprovação científica.

O céu era nosso.

A pipa era nossa.

O vento era nosso.

E talvez a infância seja exatamente isso: um período da vida em que ninguém ainda conseguiu nos convencer de que existem coisas que não podemos possuir.

Depois veio a chuva.

E, com ela, outro espetáculo.

As poças apareciam pela rua como se tivessem sido colocadas ali especialmente para nós. Vinham os caracóis, as rãs, os barquinhos de papel e aquela felicidade absurda de poder chegar em casa completamente enlameado.

Hoje, quando chove, muita gente reclama.

Naquele tempo, quando chovia, a rua inaugurava um parque de diversões.

Talvez o problema não tenha sido a chuva.

Talvez tenhamos sido nós que crescemos demais.

Ou, pior ainda, crescemos errado.

Porque uma coisa estranha aconteceu em algum ponto do caminho.

A rua, que era de todos, passou a ter dono.

A brincadeira virou perda de tempo.

O descanso virou preguiça.

A criança virou adulto.

E o adulto ganhou relógio, boleto, compromisso, senha, aplicativo, reunião, opinião sobre tudo e tempo para quase nada.

Até o vizinho começou a incomodar.

“Não pode correr.”

“Não pode fazer barulho.”

“Não pode jogar bola.”

“Não pode andar de bicicleta.”

“Não pode brincar aqui.”

Talvez algum dia alguém tenha colocado uma placa dizendo:

PROIBIDO SER FELIZ SEM AUTORIZAÇÃO.

E nós, obedientes, fomos crescendo.

Só que há um problema.

A infância é uma criatura teimosa.

Ela se esconde.

Pode passar décadas quietinha, mas basta uma música, um cheiro, uma fotografia, uma rua antiga ou uma chuva de verão para ela aparecer de repente.

E aí o sujeito que se julgava tão adulto descobre uma coisa desconcertante:

O menino ainda está lá.

Está escondido atrás dos cabelos que embranqueceram.

Está nos joelhos que já não correm como antes.

Está naquele sorriso que aparece sem pedir licença quando ouvimos uma velha canção.

Está na vontade de fazer uma bola com cinco meias.

Está no desejo de empinar uma pipa num dia de vento.

Está naquele menino que perdeu uma partida por um gol e, mesmo assim, voltou para casa feliz porque tinha jogado.

Talvez seja por isso que certas músicas sobrevivam ao tempo.

Não porque sejam apenas bonitas.

Mas porque conhecem caminhos que a memória desconhece.

“Chiquillada”, de José Carbajal, o Sabalero, é uma dessas músicas que abrem uma porta.

E, quando essa porta se abre, não encontramos simplesmente uma criança.

Encontramos uma época em que éramos pobres de coisas, mas ricos de invenção.

Uma época em que a rua era nossa.

O céu era nosso.

A chuva era nossa.

A bola era nossa.

E até um cachorro abandonado podia ganhar um lugar no time.

Hoje, olhando para trás, percebo que talvez eu tenha passado a vida inteira tentando encontrar aquele garoto.

E, para minha surpresa, descobri que ele nunca foi embora.

A calça curta é que ficou pequena.

O menino, não

Ele continua aqui.

De vez em quando, inclusive, me dá um puxão de orelha e pergunta:

— E aí, grandão… quando foi que você ficou tão sério?

Eu ainda não encontrei uma boa resposta.

Mas, quando começa a chover, confesso que olho para as poças.

E, por alguns segundos, tenho vontade de construir um barquinho de jornal.

Talvez porque, no fundo, viver também seja isso: guardar dentro da gente um lugar onde ainda seja possível brincar.

Afinal…

que sorte a nossa ter vivido o suficiente para poder contar/cantar.

 

Professor Pedro Troche Gonzalez

Pedro Troche González

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