Os Fantasmas do Pertencimento

Sob o peso de uma servidão antiga, ergue-se a massa que aprendeu a obedecer antes mesmo de aprender a questionar. Trata-se de uma existência pautada pela medíocria aceita como virtude, onde a aspiração máxima se esgota na posse parcelada de bens materiais — o carro a perder de vista, a casa típica de uma classe média frágil. Vive-se não pela emancipação, mas pelo verniz da aparência.

Ancorados em um moralismo anacrônico e dogmático, esses indivíduos habitam uma espécie de Idade Média mental. Sob o manto da fé e da virtude autoimposta, esconde-se a contradição cotidiana: a hipocrisia que julga o outro enquanto valida, pelo voto e pelo aplauso, a permanência de estruturas corruptas e figuras autoritárias no poder. Servem de sustentáculo para os mesmos algozes que os marginalizam.

A maior tragédia dessa dinâmica não reside apenas na ignorância, mas na ilusão de escolha. O alinhamento com a direita política não decorre de uma construção ideológica sólida ou da posse real de capital, mas de um desejo profundo de pertencimento. Na tentativa desesperada de se distanciar da própria realidade socioeconômica e se aproximar dos símbolos da elite, assumem o papel de defensores de interesses que não lhes pertencem.

Convertidos em instrumentos voluntários de um sistema que os despreza, tornam-se o que a sociologia crítica convencionou chamar de “pobres de direita” — sujeitos que trocam a consciência de classe pelo fetiche da assimilação. O ciclo se encerra sem redenção: uma trajetória marcada pelo complexo de inferioridade, alimentada pelo ressentimento e, ao fim, esquecida pela própria estrutura que ajudaram a preservar.
Assim seguem votando contra a realidade. Contra a ciência. Contra a própria sobrevivência. Se reclamaram aumentos salariais de 200 reais no atual governo, no anterior se calaram dos 7 reais. Se hoje reclamam de aumentos na alimentação, em torno de 28%, no governo passado amargaram calados, 80%. E assim continuam, como seus pais, votando em Collor, ou avós, votando em Jânio.
A soberania — seja nacional, popular ou individual — exige um sentimento prévio de pertencimento e agência. Quando um grupo se percebe permanentemente excluído dos processos decisórios e dos benefícios sociais, o conceito de “soberania” deixa de ter significado prático. Para quem opera no modo de sobrevivência ou de subalternidade psíquica, o Estado ou a nação não surgem como extensões de sua identidade, mas como estruturas alheias. Não há como defender o que nunca se sentiu possuir.
A escolha inconsciente por entregar o poder a uma figura distante (ou a um capital estrangeiro/abstrato) em vez de reconhecer o valor de alguém do mesmo estrato ou convívio responde a uma lógica de preservação do ego.
A Distância Neutraliza a Comparação: O dominador distante, o magnata ou o político inacessível habitam um plano quase mítico. A superioridade deles é racionalizada como “ordem natural das coisas”, o que não fere a autoimagem de quem obedece.

A Ameaça do Próximo: O vizinho ou o igual que ascende por capacidade própria destrói a narrativa de que “ninguém como nós pode vencer”. A ascensão do próximo expõe a própria estagnação e gera um sentimento insuportável de inferioridade. Em maio escala, com um ex-operário.

A Preferência pela Aniquilação Comum: Na impossibilidade de ascender, a psique ressentida prefere que todos abaixo permaneçam iguais, submetidos a um “estranho canalha” comum, a ter de testemunhar o êxito de quem compartilhava do mesmo ponto de partida.
Ao se submeterem a essa figura distante e autoritária, ocorre um fenômeno de identificação projetiva. Em vez de buscar a emancipação real, o indivíduo busca o pertencimento vicário: ele “vence” através do sucesso do seu líder, ainda que bandido, ou da elite com a qual se identifica ideologicamente, mesmo sem pertencer a ela, mantendo intacta a estrutura que o subordina.
Para Nietzsche, o ressentimento é a atitude psíquica daqueles a quem é vedada a reação genuína da ação — os fracos, os impotentes ou os excluídos. Como não conseguem afirmar a sua própria força no mundo, eles compensam essa incapacidade através de uma inversão de valores

Antonio Sonsin

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