Um dia, assistindo ao programa da Hebe Camargo, ouvi ela dizer que haveria uma promoção do SBT em parceria com o provedor iG para o Dia dos Namorados, e que eles estariam recebendo poesias e textos sobre o amor.
Logo pensei: quem não se arrisca nunca saberá… 🙂 Então, enviei este texto:
Autor: Nilton Bustamante
Não posso vê-la com os olhos do Ocidente, mas com meu sangue meio-mouro em ebulição, herdado da Ibéria.
Os seus olhos negros arábicos e hipnotizantes — ora instigando malícia, ora agitação, ora maturidade, ora viagem — trazem uma galáxia de estrelas que testemunham o deserto rico de vidas e acontecimentos.
Sinto-me seu Senhor, seu Emir, protegendo-a das tribos nômades inimigas que ficam à espreita, intencionando raptar as joias desatentas. Habite minha tenda — meio palácio, meio santuário —, com tapetes a lhe acariciar os pés e almofadas por toda parte para aconchegar seu corpo, escravo do meu amor, do meu ardor, do meu suor e dos meus caprichos. Ajoelhada, lava e enxuga meus pés com delicadeza num gesto de submissão, exalta meus feitos noutro gesto de gratidão, para, logo mais, avançar sobre mim com garras ferinas, como uma louca, para ser beijada nos seios brutalmente delicados; mas a batalha não está finda: ponho-me com a lança quente do guerreiro árabe que há em mim a ferir-lhe freneticamente as entranhas e marcar-lhe as ancas, enquanto você, exausta, aos pedaços, geme e pede novos e doces maus-tratos.
Que suaves canções trazem hoje os ventos?
Que dança fazem hoje as dunas?
Que perfume invade hoje a minha tenda?
Hasteio minha bandeira, demarco meu território para que possa sentir-se amparada, longe dos beduínos. Viver este mistério é sentir a brisa do Mar Vermelho penetrar as narinas, ainda que se esteja no meio da península; é saber a direção de Meca e orar; é ver as riquezas que brotam do preto do petróleo, do preto dos seus olhos, do preto da meia-lua; é vagar pelos caminhos que mudam ao sabor dos ventos persistentes…
Vem dançar para mim; vem me agradar; vem acabar de vez com o que resta do meu lado Ocidente, tão bárbaro e tão desassossegado; vem mostrar-me seu ventre.
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