A Apple finalmente inventou uma maneira de dobrar o iPhone. E também encontrou uma maneira de dobrar o salário necessário para comprá-lo.
O novo iPhone Duo chegou ao Brasil por 21.999. É um telefone que abre, fecha, tem uma tela enorme e faz praticamente tudo aquilo que um celular comum já fazia. A diferença é que agora podemos fazer tudo isso enquanto dobramos o aparelho.
É claro que existe engenharia ali. Desenvolver um aparelho fino, com uma dobradiça sofisticada e componentes compactados não é exatamente um trabalho fácil. Durante anos, o celular foi vendido como ferramenta de praticidade. Depois virou câmera, videogame, computador, carteira, televisão, despertador, GPS e até símbolo de status. Agora aparentemente ele precisa ser também um tablet que cabe no bolso. Não porque o mundo tenha entrado em colapso pela falta de telas dobráveis, mas porque uma indústria baseada em vender aparelhos constantemente precisa continuar encontrando alguma coisa nova para colocar na caixa.
E aí chegamos à parte curiosa do capitalismo tecnológico. Você compra um aparelho caríssimo, recebe atualizações durante anos, vê anúncios dizendo que ele foi feito para durar e, pouco depois, começa a descobrir que existe uma versão nova, mais fina, mais rápida, mais inteligente e com alguma função que você não sabia que estava faltando. O produto anterior continua funcionando. Esse é justamente o problema.
A obsolescência nem sempre precisa ser programada dentro do aparelho. Às vezes ela é programada dentro da nossa cabeça.
A tecnologia poderia significar consumir menos e usar melhor. Em vez disso, frequentemente funciona como uma corrida em que ninguém chega ao fim. O celular de ontem ainda serve perfeitamente, mas passa a parecer velho porque o celular de hoje apareceu em uma propaganda com iluminação dramática e alguém dizendo que aquilo mudou tudo.
Talvez o mais impressionante no iPhone Duo não seja sua tela grande, sua beleza ou sua câmera poderosa. É a capacidade que temos de olhar para um aparelho de até 30 mil reais e discutir seriamente se ele é necessário.
Não é errado querer tecnologia nova. Não é errado gastar dinheiro com aquilo que se gosta. O estranho é transformar desejo em obrigação social. O celular não precisa ser ruim para que a crítica faça sentido. Ele só precisa ser mais uma lembrança de que, numa economia construída sobre consumo permanente, até aquilo que já funciona precisa ser convencido de que está ultrapassado.
No fim, o iPhone dobrável resolve um problema que ninguém tinha.
Mas pelo menos ele resolve o problema com uma tela enorme.


