“Voto feminino é o erro da democracia ocidental” assim começa o vídeo da BBC News Brasil, recentemente lançado em seu canal do Youtube, que traz como temática: “Influencers brasileiros contra o voto feminino: por quê?”.
A frase em destaque foi dita pelo influencer Junior Master, do perfil RedCast, um programa voltado ao público red pill (grupos formados por homens, muito presentes no universo digital, que fomentam o ódio, violência e desprezo contra o gênero feminino), que fez um debate provocado pelos ouvintes para tratar sobre o “fim do voto feminino”.
Longe de um caso isolado, outros perfis e canais da “Machosfera” têm alimentado essa discussão, contando, inclusive, com a presença de mulheres – influencers no universo digital – como Fernanda Gardian, Pietra Bertolazzi, entre outras, que fazem ataques diretos aos direitos conquistados pelas mulheres, com destaque para o direito ao voto. Fernanda Gardian, por exemplo, chaga a dizer que “o voto feminino foi um erro”. Isso porque, segundo ela, as mulheres “estatisticamente votam na esquerda, isso não só no Brasil, no mundo inteiro”; em paralelo, Pietra Bertolazzi acrescenta ainda o viés religioso em sua fala, dizendo abertamente, em alto e bom som, ser contra o voto feminino e que a última palavra da família deve ser a do homem.
Conteúdos como esses também são explorados em canais e grupos religiosos espalhados pela internet, que fazem uma leitura fundamentalista da bíblia na defesa de relações verticais entre homens e mulheres, muito distante das relações horizontais que preconizam a igualdade de direitos entre os gêneros, que vem sendo arduamente construída ao longo do tempo numa sociedade democrática.
Debates como esses poderiam simplesmente ser ignorados dados os inúmeros preconceitos reproduzidos, amparados em argumentos infundados e estatísticas inexistentes, se não fosse o caso de serem pessoas que, no universo digital, contam com milhares de seguidores. Falas como: “Mulher vota, estatisticamente, muito mal, principalmente as mulheres solteiras”, proferida pelo influencer Paulo Figueiredo, em outra postagem, são curtidas e reproduzidas por centenas de pessoas…
Importante rememorar que somente em 1932, com o novo Código Eleitoral –algo portanto muito recente na história deste país – que as mulheres passam a ter seus direitos políticos – e com ele o direito ao voto – reconhecidos. Fruto de muita luta, mobilização e resistência, essa conquista representa um importante passo, num país estruturado pela desigualdade de gênero. Luta essa (e outras) que seguem vivam, seja pelo reconhecimento do que ainda não há, seja na vigilância para não se perder o que foi conquistado, a exemplo dos direitos políticos para as mulheres.
Todo esse ataque ao voto feminino, para além de um retrocesso imensurável, ascende o conservadorismo que estrutura as relações de submissão, mandonismo e inferioridade entre homens e mulheres, nas quais prevalece a determinação contundente masculina sob a obediência servil feminina. Não à toa, esse debate é capitaneado justamente por homens que veem a ascensão feminina como uma ameaça ao seu poder e controle, numa sociedade patriarcal e machista, que lhe atribui esse papel.
Alguns podem até achar “bobagens” ou que são “brincadeiras” a reprodução dessas falas, mas elas camuflam um ataque direto ao próprio sistema democrático e junto a isso, a toda organização que ele assegura, dentre elas, a própria liberdade de expressão de se colocar contrário a possibilidade de decidir e escolher algo. O que seria, a título de exemplo, muito diferente num regime ditatorial, onde não há liberdade de expressão e espaço para o contraditório.
Debates como esses merecem sim nossa atenção, pois eles parecem que vão naturalizando o desmantelamento de uma sociedade democrática, que prima, dentre outros, pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. A perda de direitos, a ascensão do ultraconservadorismo, o dogma religioso, a vigência de regimes ditatoriais, fascistas e autoritários não nascem de um dia para o outro. Tudo isso vai sendo absorvido, naturalizado e introduzido no conjunto da sociedade gradativamente, sutilmente, parecendo ser “bobagens”, mas não são…
É melhor levarmos tudo isso a sério, a tempo, dentro de uma democracia!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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